Jovens latino-americanos preferem usar a internet a assistir TV

Postado em Mídia com categorias às Maio 14, 2008 por Leandro Marshall

Da Efe, em Madri

 

Os jovens latino-americanos preferem usar a internet a assistir televisão, embora a maioria não disponha de acesso à rede em sua casa, segundo a primeira pesquisa realizada pela Universidade de Navarra e pelo programa Educared da Fundação Telefónica, na qual participaram 7 países da América Latina.

 

A Telefónica divulgou nesta sexta-feira (9) os primeiros dados do levantamento do qual participaram 22 mil estudantes de mais de 200 centros educativos de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela. A pesquisa foi realizado entre julho e outubro de 2007.

 

Trata-se do primeiro estudo que integra as diferentes tecnologias disponíveis para crianças e jovens –o maior do tipo realizado na América Latina.

 

 

Cerca de 42% dos jovens de 11 anos indagados preferem a internet à televisão e a porcentagem sobe para 60% no segmento de adolescentes entre 14 e 15 anos.

A internet vai ultrapassar a televisão

Postado em Uncategorized às Abril 30, 2008 por Leandro Marshall

Reuters, em Londres

  

 

A internet vai ultrapassar a televisão e se tornará o maior alvo dos investimentos publicitários no Reino Unido em 2009, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira (7). A região tem o mercado de publicidade on-line mais desenvolvido do mundo, segundo informações do IAB (Internet Advertising Bureau).

 

De acordo com estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers e do World Advertising Research Centre, a rede movimentou cerca de US$ 5,6 bilhões em 2007. As empresas estimam que esse valor representa uma alta de 38% no ano passado, resultado do aumento na base de usuários, da introdução de laptops populares e do crescimento de serviços de televisão pela web.

 

“Com o aumento na velocidade da banda larga e os consumidores ficando mais tempo nos sites, o panorama para a publicidade on-line é cor de rosa –na verdade, nós esperamos que ela [a internet] ultrapasse a televisão em 2009, quando vai se tornar a maior mídia britânica”, afirma Guy Phillipson, executivo-chefe do IAB, em comunicado. Atualmente, a internet tem uma participação de 15,3% nos gastos com publicidade no Reino Unido, atrás da mídia impressa, com 19,9%, e da TV, que tem 21,8% do mercado. Segundo o estudo, a internet foi a maior responsável pelo crescimento nos gastos com publicidade em 2007 –o setor todo cresceu 4,3% em 2007. A colocação de banners e vídeos de publicidade cresceu 31%, enquanto a publicidade por sistemas de busca subiu 39% no país.

Cai circulação dos jornais norte-americanos

Postado em Mídia às Abril 30, 2008 por Leandro Marshall

 

A maior parte dos grandes jornais americanos viu seus números de circulação caírem a taxas mais altas, um sinal de que a migração dos leitores para a internet pode estar ganhando velocidade, diz noticia do Wall Street Journal.

 

O números foram divulgados ontem pelo Audit Bureau of Circulations - 534 jornais diários caíram em media 3,6% nos dias úteis, no período de 6 meses encerrados em 31 de março.

 

A comparação é com o mesmo período do ano anterior.

 

O ritmo da queda se intensificou - os percentuais de declínio tinham sido de 2,1% e de 2,6% nos períodos anteriores.

 

Abaixo os 10 maiores jornais dos EUA, sua circulação diária e a variação em relação a 1 ano atrás. 29/04 Blue Bus

 

  • USA Today, 2,28 milhões, + 0,3%
  • Wall Street Journal, 2,0 milhões, + 0,4%
  • New York Times, 1,0 milhão, - 3,9%
  • Los Angeles Times, 773 mil, - 5,1%
  • New York Daily News, 703 mil, - 2,1%
  • New York Post, 702 mil, - 3,1%
  • Washington Post, 673 mil, - 3,6%
  • Chicago Tribune, 541 mil, - 4,4%
  • Houston Chronicle, 494 mil, - 1,8%

O Declínio de Nietzsche

Postado em Cultura às Abril 17, 2008 por Leandro Marshall

Nietzsche

 

 

por Vittorino Andreoli

http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_declinio_de_nietzsche.html

Revista Mente & Cérebro

 

Um dos principais filósofos do século XIX, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche foi vítima de um distúrbio mental, provavelmente causado pela sífilis, que arruinou seus últimos anos de vida e cuja evolução pode ser percebida em suas obras.

A evolução da doença se divide em três fases: na primeira a infecção fica restrita aos órgãos genitais; na segunda, alastra-se pelo organismo; na terceira causa paralisia progressiva e demência. Nietzsche adoeceu em 1873, mas só se afastou da atividade docente na Universidade da Basiléia em 1879 − quando sua voz era quase inaudível para os alunos. Os sintomas da demência só vieram dez anos depois, mas os primeiros sinais de deterioração intelectual já aparecem nos seus textos de 1887.

O que se observa, a partir de A gênese da moral, é a passagem de um Nietzsche que escreve com força e determinação, de forma densa e ao mesmo tempo sintética, para “outro” que parece incapaz de afrontamentos, que se perde entre notas e apontamentos publicados postumamente e cuja organização lógica até hoje é alvo de críticas. Nessa mesma época, o filósofo alemão redige quatro panfletos pouco concisos, cheios de contradições, que parecem escritos com raiva, algo que os leitores não esperavam encontrar em volumes de filosofia.

Os quatro panfletos

O primeiro, Nietzsche contra Wagner, de 1888, chega a ofender o amigo músico. Depois de se aconselhar com seu editor, o filósofo corrige o texto, publica-o novamente com um prefácio, um epílogo e ainda um post scriptum. O segundo panfleto se chamaria Alegria de um psicólogo, mas por sugestão do editor recebeu o título O crepúsculo dos ídolos: ou a filosofia a golpes de martelo. Diz o autor nesse texto: “Não existe uma realidade supra-sensível, aquela imaginada pelos idealistas, não existe um mundo racional, não há um mundo moral, ainda que os moralistas continuem insistindo. Não existe nem mesmo o mundo das aparências. Definitivamente não existe nada”.

O anticristo é o terceiro panfleto e se limita a demolir o cristianismo. Aqui também as frases são carregadas de violência, ira e ausência de reflexão e de direção. O quarto e último panfleto é Ecce homo. O que significam os títulos desses dois textos? Uma referência a Cristo? Talvez O anticristo fosse somente um nome para indicar a figura mítica de Dionísio, que Nietzsche passou a encarnar em algumas cartas a amigos.

Outra idiossincrasia diz respeito ao emprego de expressões líricas, usadas de forma superficial em alguns textos, ao mesmo tempo que outros se aprofundavam na introspecção e na auto-reflexão. Estes elementos testemunham o declínio de uma mente brilhante, declínio este que começou exatamente no dia 5 de janeiro de 1889. Nesse dia Nietzsche teve início a enviar cartas aos amigos Jacob Burckhardt e Franz Overbeck. Ao primeiro escreveu: “Eu sou Ferdinand de Lesseps, eu sou Prado, eu sou Chambige [assassinos dos quais se ocupavam a imprensa parisiense], eu fui envolvido no lençol dos mortos duas vezes neste outono”. Overbeck recebeu uma carta com o mesmo conteúdo macabro. Em uma terceira correspondência, enviada ao músico Peter Gast, ele assina como “o crucificado”. À antiga amiga Cosima Wagner (mulher do compositor Wilhelm Richard Wagner), escreve: “Arianna, eu te amo”. Assinado: “Dionísio”.

Anos depois, historiador francês Daniel Halévy refaz o caminho de Overbeck em busca do amigo perturbado: “Overbeck parte para Turim. Encontra Nietzsche num quarto mobiliado, cantando e gritando sua glória, batendo no teclado do piano (…) Mais tarde, ao sair de casa, viram um homem que guiava uma carroça batendo no próprio cavalo; indignado, o filósofo colocou-se imediatamente entre os dois, imobilizando o homem com os braços e impedindo-o de continuar a bater no animal. Os transeuntes pararam para olhar, um agente policial interveio. Queriam retirá-lo daquela situação, mas ele se jogou no chão, parecia numa crise de delírio (…) O policial decidiu algemá-lo, mas Overbeck intercedeu. Falando em nome da Universidade da Basiléia, obteve permissão para levá-lo de volta para casa”.

Nietzsche estava completamente perturbado. Misturava canções, dirigia-se às pessoas por meio de cantigas. Um médico da Basiléia, cujo filho era grande apreciador das obras do filósofo, dedicou-se ao caso com particular atenção e o transferiu para uma clínica psiquiátrica em Jena, de onde saiu em 1897 para viver com a mãe em Naumburg. Com a morte dela, mudou-se para a casa da irmã em Weimar, onde permaneceu até a morte em 1900. Desses anos sabemos muito pouco. É possível que ele tenha chegado à forma grave de demência, mas o assunto era delicado demais para ser comentado na época.

 

O delírio de Galeno

Postado em Cultura às Abril 17, 2008 por Leandro Marshall

No século II, o médico grego definiu alucinação e ilusão

ao distinguir os delírios da razão e dos sentidos.

 

por Isaias Pessotti

http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_delirio_de_galeno_2.html

Revista Mente & Cérebro

 

 

Sintomas clássicos de algum distúrbio mental são as alucinações, tais como ver pessoas ou objetos inexistentes, ou “ouvir vozes” sem que ninguém emita som algum. Diversamente, quando a percepção absurda ou distorcida refere-se a objetos reais e presentes não há alucinação; há o que em psicologia se chama “ilusão”. Mas em psicopatologia só interessam certas ilusões. As ilusões de óptica, ou as provocadas por um mago, por exemplo, são percepções normais.

Enquanto eventuais sintomas de algum distúrbio mental, alucinação e ilusão não se equivalem. Esquirol, em 1838, as distinguiu de forma lapidar: “Um homem que tem a convicção íntima de uma sensação realmente percebida, quando nenhum objeto exterior capaz de excitar aquela sensação está ao alcance do sentido, está em estado de alucinação: é um visionário… a ilusão ao contrário é um erro dos sentidos, que não põe em questão a presença real do suporte da percepção. Há sempre impressão real dos objetos exteriores. Impressão dos sentidos”.

Como se vê, o critério discriminante de Esquirol é presença ou ausência de um objeto real. Trata-se, em ambos os casos, de erros de percepção.

Galeno (131-200), como outros grandes médicos antigos, já se ocupara com a distinção entre alucinação e ilusão. Mas com um critério diverso, que ele ilustra ao relatar um episódio pessoal de delírio: “Alguns também deliram por causa do desarranjo de sua faculdade de pensar, mas conservaram por um curto momento sua faculdade crítica e a recuperaram o bastante para… resistir e compreender o que lhes ocorria… eu acreditava ver esvoaçando sobre meu leito fiapos escuros… eu executava movimentos para pegá-los… Ouço dois meus amigos presentes dizerem entre eles ‘olha ele já está tentando pegá-los’. Eu compreendi perfeitamente o que me estava acontecendo, o que eles diziam, e como sentia em mim que minha inteligência não sofria perturbação eu disse: Vocês têm razão, venham ajudar-me para que a loucura (phrenitis) não me domine”.

É um caso de delírio dos sentidos, mas não de delírio da razão, segundo Galeno. Pelo critério de Esquirol, seria um episódio de alucinação, pois os fiapos não existem, e há a convicção de uma sensação realmente percebida. Mas aqui existe a consciência de que essa percepção é enganosa. O critério discriminante, entre os dois tipos de delírio, para Galeno, é a consciência da falsidade da percepção alucinatória, no delírio dos sentidos, e a ausência dela no delírio da razão. Sem prejuízo de haver a “convicção íntima de uma sensação realmente percebida”. A diferença de critérios se explica: como bom discípulo de Pinel, Esquirol enxerga alucinação e ilusão como erros, incoerências entre a experiência sensorial e a realidade objetiva. Galeno, como bom seguidor de Platão, procurou apontar o papel da razão, da “faculdade crítica”, ou seja, da consciência da percepção, em cada um deles.

O que Esquirol chamaria de alucinação seria para Galeno um delírio da razão. Há alucinação quando se perde a “faculdade crítica”; mesmo quando a percepção errada se refere a um objeto real e presente. Mesmo nos casos que Esquirol consideraria ilusões.

 

 

A dança das opiniões

Postado em Cultura com categorias às Abril 17, 2008 por Leandro Marshall

Revista Mente & Cérebro

24 de janeiro de 2008

http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/a_danca_das_opinioes.html

 

 

 

(Agência USP de Notícias) − Por meio de princípios de física e estatística, um pesquisador da USP tenta entender quais são os mecanismos que levam ao aparecimento de opiniões extremistas dentro da sociedade. O físico André Martins, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Leste, desenvolveu um modelo exploratório que verifica as conseqüências da mudança de opinião das pessoas com base em novas informações recebidas, por exemplo, dos vizinhos.

O modelo foi testado em computador, e se baseia no Teorema de Bayes, um princípio básico de estatística. “Cada opinião individual é uma probabilidade associada a uma das idéias que estão em debate para ser a melhor opção”, explica Martins, professor do curso de Sistemas de Informação da EACH. “Essa probabilidade pode ser alterada por meio de métodos estatísticos conhecidos.”

Uma rede de vizinhança foi simulada para descobrir porque algumas opiniões mudavam e outras se tornavam fortemente arraigadas. “A idéia é observar o que regras simples de interação entre as pessoas geram em uma escala maior”, observa o físico, “do mesmo modo que a observação de fenômenos microscópicos, entre moléculas, por exemplo, pode ajudar a entender o que acontece em sistemas macroscópicos”.

Durante o estudo, conforme os vizinhos interagiam entre si, havia uma tendência a se formarem grupos com a mesma opinião. “Ao final, verificou-se que as pessoas acabavam se concentrando nos extremos”, conta o professor, “embora não seja possível prever em qual grupo a pessoa com determinada posição inicial irá se situar depois do processo de interação.”

Vizinhança

Segundo Martins, os caminhos que serão seguidos pela opinião também dependem do ponto em que a pessoa se encontra na sociedade. “Se você convive com pessoas que têm as mesmas opiniões, seu posicionamento é reforçado, mas ele pode mudar em contato com pontos de vista diferentes”, aponta. “Um novo estudo pretende mostrar de que forma a estrutura das redes de vizinhança pode colaborar para reduzir os extremismos”.

O professor lembra que os estudos de modelagem de dinâmica de opiniões surgiram entre físicos há cerca de 20 anos. “Uma das principais preocupações era descobrir os mecanismos que levavam ao surgimento de consensos, ou seja, o que fazia setores da população pensar da mesma forma”, diz.

“Hoje, a pesquisa nessa área também é um primeiro passo para se entender o que leva as pessoas a terem opiniões e comportamentos extremistas”, ressalta o físico. “No futuro, talvez seja possível identificar e ajudar a lidar com as situações que poderiam levar a problemas como brigas entre torcidas ou terrorismo.”

O estudo de André Martins é descrito em um artigo que será publicado no International Journal of Modern Physics C (Computational Physics and Physical Computation).. O trabalho do físico também foi tema de uma matéria publicada na revista britânica New Scientist, no último mês de novembro.

 

Macacos criam frases para se comunicar, diz estudo

Postado em Uncategorized às Março 12, 2008 por Leandro Marshall

Notícia do Portal G1

12/03/2008

 http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL347165-5603,00-MACACOS+CRIAM+FRASES+PARA+SE+COMUNICAR+DIZ+ESTUDO.html 

Um estudo da Universidade de St. Andrews, na Escócia, revelou que macacos combinam sons para passar mensagens específicas, da mesma forma que humanos combinam palavras para criar frases.

 Com a descoberta, os pesquisadores esperam encontrar novas pistas sobre a evolução da linguagem humana.

Os cientistas gravaram mensagens de alarme de macacos-de-nariz-branco na Nigéria e observaram que eles combinam sons para, aparentemente, transmitir mensagens com diferentes significados.

Acreditava-se que os macacos poderiam apenas criar novos sons para se comunicar, em vez de combinar os já existentes.

Os cientistas pensavam que a combinação dos sons formando frases, entre humanos, só ocorreu porque o repertório desses sons ficou muito grande.

Já os macacos-de-nariz-branco combinam apenas um pequeno número de sons.

Grande repertório

Segundo Klaus Zuberbühler, da Escola de Psicologia da universidade, “a pesquisa revelou alguns paralelos interessantes no comportamento vocal dos macacos da floresta e esta característica crucial da linguagem humana”.

“Em algum momento, de acordo com a teoria, ficou mais econômico para os humanos combinar os elementos de comunicação já existentes, em vez de adicionar outros a um grande repertório.”

“Isso é baseado na noção de que os sinais seriam combinados apenas depois que houvesse um número suficiente. Nossa pesquisa mostra que essas suposições podem não estar corretas.”

Em 2006, os pesquisadores da universidade descobriram que os macacos produziam uma série de diferentes chamados de alarme para distinguir a qual predador se referiam.

Esta última pesquisa traz evidências de que os vários chamados podem conter pelo menos três tipos de informação: o evento testemunhado, a identidade do autor do chamado e se ele pretendia sair do local.

Todas as informações seriam reconhecidas pelos outros macacos.

LABIRINTOS DA APARÊNCIA

Postado em Mídia às Fevereiro 27, 2008 por Leandro Marshall

O filósofo que observou a mídia

Por Luciano Martins Costa

Publicado no Observatório da Imprensa em 26/02/2008

Vilem Flusser, filósofo brasileiro nascido na antiga Checoslováquia e que escrevia em alemão, costumava dizer que o esforço fundamental do ser humano, em qualquer cultura, consiste em mover-se do mundo das aparências para o mundo da realidade. Flusser foi ignorado pela mídia cultural e desprezado pela universidade enquanto viveu. Só virou filósofo cult depois de morto porque sua obra despertou grande interesse na Europa. Foram muitas as lições com que impregnou as mentes de jovens candidatos ao título de jornalista ou de publicitário, no começo dos anos 1970, quando discorria sobre os meios de comunicação, a cultura de massa, a transnacionalidade, e diagnosticava o fenômeno da substituição crescente da atitude pelo gesto. Quem pôde folhear velhos cadernos de anotações e lembrar os chás em que ele revisava permanentemente sua obra, tem hoje uma amostra clara do que o filósofo vislumbrava há mais de trinta anos. Para não cair na tentação de viajar no amplo espectro dos pensamentos de Flusser, convém situar estas observações naquilo que ele dizia sobre o processo que chamamos civilizatório e o papel da mídia. Ele dizia que, no esforço de mover-se do mundo das aparências para o mundo da realidade, a evolução do ser humano encontra três tipos básicos de objeções: o ceticismo, que nega a capacidade do espírito de atravessar as aparências; o niilismo, que nega a existência de uma realidade além da aparência; e o misticismo, que constrói realidades aparentes, negando a transcendência da realidade e impossibilitando ao espírito comunicar-se para além dos limites da aparência.

Um exercício “filosófico”

Flusser registrou essas reflexões em seu livro Língua e Realidade, no qual também intuía que uma nova linguagem, unificadora das múltiplas formas e níveis de aproximação da realidade, poderia significar tão diretamente a realidade que seria também um contêiner fechado no qual não caberiam descrições do mundo aparente. Mas foi nas entusiasmadas aulas da FAAP, em São Paulo, e nos chás para pequenos grupos de embasbacados discípulos que ele fez as observações que hoje nos ajudam a entender a mídia. Em primeiro lugar, ele dizia que os jornais diários poderiam até colocar como meta expressar a realidade e, com isso, cumprir um papel relevante no processo civilizatório, mas sempre cairiam na tentação de construir seus labirintos no universo da aparência. A televisão, para ele, era o instrumento mais acabado da dissimulação, por sua capacidade de mostrar imagens da realidade e convencer o telespectador de que aquilo era apenas uma aparência, ou fracionar de tal maneira o discurso paralelo à imagem que a realidade retrocedesse em aparência.

Em certa ocasião, quando explicava a diferença entre gesto e atitude, Flusser chutou a mesa para representar o significado da atitude – e quebrou seu próprio cachimbo. O comentário que se seguiu foi um retrato do que viria a ser a imprensa do nosso tempo. Ele disse algo como: “O gesto tem um efeito enorme na platéia, você pode construir uma carreira e até uma biografia com gestos, mas não terá alcançado a realidade. A atitude contém mais riscos, no mínimo pode quebrar nosso cachimbo, mas é a expressão que nos aproxima da realidade”. A imprensa é, hoje, majoritariamente, um espaço nobre dedicado ao mundo das aparências. Colocada a serviço de mudanças pontuais que forjam uma ilusão de movimento evolutivo, transformou-se em veículo das objeções que contribuem para manter o espírito humano preso às aparências. Não é necessário um grande esforço de observação para se constatar em que pacote de objeções cada veículo da mídia melhor se enquadra. Pode-se dizer, por exemplo, como exercício “filosófico”, que a Rede Globo é essencialmente niilista, enquanto a Rede Record é essencialmente mistificadora; que a Folha de S.Paulo tem como característica mais evidente o ceticismo, enquanto o Estadão rejeita qualquer hipótese de realidade que se estenda além de suas convicções, o que se enquadra nas objeções místicas e no ceticismo.

A realidade encoberta

Toda a mídia, claramente, valoriza o gesto sobre a atitude. Não têm significado mais apropriado a mania de transformar declarações em manchetes, o vício de encher as páginas com frases e deixar para segundo plano a descrição e a narração. A investigação (teoricamente um instrumento para a perfuração da aparência em busca da realidade) é valor cada vez mais raro.Por fim, não é demais citar Vilem Flusser na observação magistral sobre a conversação (que em nossa sociedade se dá, em termos de massa, por meio da mídia): “A grande conversação que é a sociedade ocidental gira em círculos cada vez mais amplos em torno de umas poucas situações primordiais (…)” e esse movimento circular revela e encobre a realidade. O poder da mídia estaria, então, em definir quando, nessa conversação, se expande a percepção para fora da aparência. Mas tudo indica que ela, a mídia, não está interessada em romper esse círculo.

Vilem Flusser nasceu em Praga, em dia 12 de maio de 1920. Fugindo do nazismo, passou rapidamente pela Inglaterra e se fixou no Brasil, onde deu aula na USP, na FAAP e no ITA. No fim da vida, foi viver na França e só voltou a Praga para dar uma conferência, em 20 de novembro de 2001. Morreu no dia seguinte, num acidente de carro, quando voltava de um piquenique com sua mulher. Sua obra merece a atenção dos comunicadores.

Sobre as invenções humanas

Postado em Uncategorized às Fevereiro 21, 2008 por Leandro Marshall

Francis Bacon (1561-1626)

Digne-se o homem considerar a diferença infinita que se observa na maneira de viver entre os habitantes das partes mais civilizadas da Europa e os da região mais selvagem, mais bárbara do Novo Mundo; considerando bem esta diferença, sentiremos mais do que nunca que, se podemos dizer com certeza que tal homem é como um Deus com relação a outro, não é apenas por causa da ajuda que ele proporciona alguma vez aos seus semelhantes e dos benefícios que derrama sobre eles, senão também por causa das situações.Porém, qual é a verdadeira causa que estabelece tão prodigiosa diferença? Não é certamente o clima, nem o solo, nem a constituição física, senão as artes, somente as artes, os conhecimentos.Também é benéfico pousar o pensamento um instante sobre a sua força, sobre a surpreendente influência e conseqüências infinitas de certas invenções; o exemplo mais palpável e maravilhoso dessa influência, reside em três coisas desconhecidas para os antigos, que viram a luz humilde e silenciosamente: a imprensa, a pólvora e a bússola.Estes três inventos modificaram a face do globo terrestre produzindo três grandes revoluções: a primeira nas letras, a segunda na arte militar e a terceira na navegação, revoluções que deram origem a infinidade de variações de toda espécie e cujo efeito foi tal que não há império, seita nem astro que pareça ter tido ascendente, que haja exercido influência tão grande sobre as coisas humanas.
(…)
Excerto de Novum organum - Interpretação da natureza e predomínio do homem [1620], de Francis Bacon, trad. de L. A. Fischer, Brasília Editora, s/d., p. 136-7, Biblioteca de Cultura Clássica, . Foi feita atualização ortográfica.  

Cultura humana também pode sofrer seleção natural, afirma pesquisa

Postado em Uncategorized às Fevereiro 19, 2008 por Leandro Marshall

Do G1, em São Paulo

19/02/2008

http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL304097-5603,00

Antropólogos e sociólogos gostam de traçar uma divisão clara entre a evolução biológica e a evolução cultural. Uma dupla de pesquisadores americanos, no entanto, diz que essa separação é, ao menos em parte, imaginária. Em um novo estudo, eles levantaram indícios de que transformações culturais podem ser influenciadas pela seleção natural, o mesmo processo que é o principal responsável pela evolução da vida. Se Deborah Rogers e Paul Ehrlich, da Universidade Stanford, estiverem corretos, a regra é simples: características culturais que têm um impacto direto na sobrevivência do homem vão acabar passando pelo crivo da seleção natural. Já as supostamente “decorativas” — estilos de roupa, decorações em vasos e por aí — teriam mais liberdade de se diversificar seguindo o mero capricho de seus criadores. Os dados vêm de uma análise das canoas de dez ilhas da Polinésia, no oceano Pacífico. Os polinésios nunca construíram caravelas, como os exploradores europeus, mas colonizaram sozinhos vastas extensões do Pacífico, usando apenas pequenas canoas para navegar. Aparentemente, todos eles descendem de uma única população ancestral que deixou o Sudeste Asiático há poucos milhares de anos. Por isso, suas canoas são um alvo ideal para estudar a seleção natural-cultural: ao atravessar o oceano, canoas boas e seus ocupantes sobreviviam e deixavam descendentes (no caso das canoas, mais canoas cujo modelo era baseado nelas); e canoas feitas porcamente levavam seus donos e elas mesmas para o fundo do mar.   Rogers e Ehrlich compararam as canoas produzidas em cada uma das ilhas da Polinésia, tentando calibrar o quanto elas mudavam em função da distância de uma ilha para outra. Ao mesmo tempo, dividiram as características das embarcações em duas categorias: funcionais e não funcionais. A primeira classe englobava coisas essenciais para a navegabilidade e a estabilidade das canoas (casco duplo, tipo de remo etc.), enquanto a segunda se referia a pinturas, esculturas, ornamentos e outros detalhes decorativos. O que eles viram é que as características essenciais mudavam bem menos de uma ilha para outra do que os traços decorativos, que mudavam mais. É como se a “sobrevivência” das canoas estáveis restringisse o tipo de barco que podia ser feito: para funcionar, uma “canoa-filha” tinha de seguir o modelo bem-sucedido “materno”. A pesquisa está na revista científica americana “PNAS”.