Publicado por: Leandro Marshall em: Abril 1, 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Os brasileiros passam três vezes mais tempo por semana conectados à internet do que assistindo televisão, segundo pesquisa da Delloite.
O levantamento diz que a maioria das pessoas (81%) cita o computador como meio de entretenimento mais importante do que a TV.
Segundo o estudo, os consumidores gastam, atualmente, 82 horas por semana utilizando diversos tipos de mídia e de entretenimento tecnológico, como o celular, e que estes são altamente voltados para atividades on-line e bastante interessados em novos tipos de mídia e tecnologia.
Denominada “Futuro da Mídia”, a pesquisa constatou também que 58% dos participantes veem os videogames, jogos no computador e on-line como importantes fontes de entretenimento. Além disso, verificou que 50% dos entrevistados estão atentos aos lançamentos tecnológicos e tentam adquirir rapidamente esses equipamentos, e 47% usam o celular como dispositivo de entretenimento.
A interação com esses mecanismos de entretenimento e o fato de os usuários serem os próprios provedores de conteúdo de suas mídias preferidas foram fatores bastante destacados na pesquisa, sendo que 83% dos entrevistados disseram fazer seu próprio conteúdo de entretenimento por meio, por exemplo, da edição de fotos, vídeos e músicas.
O levantamento apurou que as atividades mais frequentes na internet são a utilização de ferramentas de busca, leitura de notícias nacionais e locais, consulta à previsão do tempo, atualização sobre acontecimentos factuais e busca de conteúdos de interesse pessoal, como músicas, pesquisas para escola ou trabalho e sobre produtos.
Um dado que chama atenção é que a maioria dos entrevistados disse se sentir limitada em razão da velocidade de conexão à web. Do total, 85% afirmaram estar dispostos a pagar mais para ter conexões mais velozes, sendo as pessoas da faixa etária acima de 43 anos as mais dispostas a arcar com um custo maior.
De acordo com a pesquisa, a faixa etária de 26 a 42 anos é a mais envolvida com atividades interativas na internet, como assistir a programas de TV ou usar o computador para chamadas telefônicas.
Considerando todos os grupos, a atividade mais realizada na internet é a criação de conteúdos pessoais para serem acessados por outras pessoas, como websites, fotos, vídeos, músicas e blogs.
O estudo revelou ainda que um total de 92% dos entrevistados possui celular e que, entre os aplicativos disponíveis no aparelho, as mensagens de texto são as mais utilizadas (92%), seguidas da câmera digital (78%), jogos (67%) e a câmera de vídeo (62%).
Esta é a terceira edição da pesquisa, que pela primeira vez incluiu o Brasil no quadro de países participantes, que teve ainda os Estados Unidos, Japão, Alemanha e Grã-Bretanha. Foram ouvidas cerca de 9 mil pessoas no total, 1.022 no Brasil, com o objetivo de traçar um cenário sobre como os consumidores se relacionam com a mídia e identificar quais as tendências para os próximos anos.
Publicado por: Leandro Marshall em: Março 3, 2009
Rubem Alves
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar…. Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que… Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma..
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor…
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração.. .
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos…
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança…
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio…
Abrindo vazios de silêncio… Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos. ..
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir…. São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência…
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras… No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia….
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
Publicado por: Leandro Marshall em: Fevereiro 11, 2009
As duas imagens deste texto dão uma idéia do tamanho do problema que a indústria de notícias já enfrenta, hoje, e também a pedreira daqui pra frente. à esquerda, um gráfico do pew research center for people and the press mostra que os jornais foram superados pela internet, este ano, como fonte de informação nos EUA.
Entre 2007 e 2008, as notícias dos jornais ganharam 1% de audiência, as da TV perderam 4% e a internet –como fonte de informação- ganhou 16%. os totais de audiência, somados, passam de 100% porque a resposta é de escolhas múltiplas. de seu pico, em 2002, a TV perdeu 12 pontos; do pico de 2003, o rádio perdeu 15 pontos. por outro lado, de sua base de 2001, que é quando banda começa a se tornar realmente disponível para a internet nos EUA, a audiência para notícias, na rede, saiu de 13 para 40 pontos. sinal dos tempos.
Mas mudança ainda mais radical já é percebida na faixa etária entre 18 a 29 anos. Olhe a outra tabela: nela, a internet já empata com TV como principal fonte de informação, enquanto rádio, jornais e revistas estão muito atrás. para os mais jovens, TV perdeu 11 pontos entre 2007/8 e a internet cresceu 25 pontos. isso pode ser resultado do interesse despertado pela campanha eleitoral americana, com o time vencedor usando a rede ostensivamente e atraindo, para lá, uma grande parcela dos mais jovens… ou vice-versa: o fato dos jovens estarem na rede fez o time de obama levar boa parte da campanha para lá e, com isso, quem já vivia a campanha, na rede, acabou vendo as notícias sobre a eleição e outras por lá mesmo. e pode ser uma combinação –definitiva- dos dois fatores.
Estes resultados estão em linha com dois textos recentes deste blog, um sobre o destino [quase certo] dos jornais de papel, de 2 de dezembro passado, quando falávamos de mais de 13 mil jornalistas e pessoal auxiliar demitidos nos EUA, no ano, até então. nos últimos dias de 2008, mais 2 mil perderam o emprego levando a mais de 15.500 demissões no setor, nos EUA, em um único ano. no primeiro mês de 2009, quase 1.000 jornalistas e e assistentes já foram demitidos por lá. é como se toda uma era, incluindo a dos grandes jornais, estivesse chegando ao fim, com ícones como o new york times e o chicago tribune em vias de passar, também, para a história. o outro texto era sobre o crescimento da publicidade na internet, no brasil, que vem aumentando aí pelos 45% por ano, ritmo no qual deve passar rádio em 2009, depois de já ter empatado, em 2008, com TV por assinatura. e o total do investimento em propaganda, por sinal, deve cair na soma de todos os meios à medida que a internet cresce… como diz jeff zucker, da NBC, a revolução da informação é a transformação de dólares analógicos em centavos digitais.
E no brasil, quando é que veremos coisas como o PEW está descobrindo nos EUA? sem contar com mais e melhores pesquisas sobre comportamento na internet, pra começar, precisamos de muito mais banda e universalização. outro texto publicado aqui no blog, em setembro, relatava uma pesquisa da universidade de oxford onde o brasil aparece no honroso terceiro lugar… de baixo pra cima, em uma lista de 42 países, quando o assunto é qualidade da banda larga. ainda precisamos descobrir, por aqui, que quem não tem banda larga [mesmo] não tem internet.
Publicado por: Leandro Marshall em: Fevereiro 11, 2009
Uma pesquisa recém-divulgada nos Estados Unidos, conduzido pela empresa de consultoria Deloitte, mostra que, quanto mais jovem o telespectador, menos tempo ele passa em frente à TV.
A audiência que tem entre 14 e 25 anos assiste à televisão 10,5 horas por semana.
O número aumenta de acordo com a idade, chegando a 21,5 horas/semana entre os espectadores com mais de 60 anos.
A sondagem sugere que os jovens preferem ver o conteúdo para TV, como as séries, nas telas do computador.
De acordo com a pesquisa, as horas que o adolescente norte-americano médio costumava passar diante da televisão estão agora sendo dedicadas a vídeo-game, música e internet.
A Deloitte também aferiu a assiduidade com que o norte-americano vai ao cinema, alcançando resultado inverso: quanto mais avançada a idade, menos idas à sala escura.
Publicado por: Leandro Marshall em: Janeiro 22, 2009
Os americanos estao assistindo mais TV e usando mais a internet – e boa parte desse consumo ocorre ao mesmo tempo.
Segundo pesquisa da Nielsen, uma pessoa nos EUA vê em média 142 horas de TV por mês, 4% a mais que no ano passado.
Um usuário de internet passa online 27 horas por mês, 6% a mais que em 2007.
De acordo com a pesquisa 31% do consumo dessas mídias é simultâneo.
A notícia é do The Live Feed<http://www.thrfeed.com/2008/11/nielsen-tv-use.html>, blog do Hollywood Reporter. Blue Bus<mailto:200@bluebus.com.br>
Publicado por: Leandro Marshall em: Setembro 27, 2008
O portal Technorati<http://www.technorati.com/> publicou, na última segunda-feira (23), a edição atualizada de sua pesquisa “State of Blogosphere”, sobre a atual situação dos blogs na rede mundial de computadores. Nela, são constatadas informações gerais, desde a identificação dos usuários que fazem uso da ferramenta aos motivos que os levam a utilizá-la.
Na primeira parte, o portal se dedicou a divulgar os diversos perfis dos blogueiros ao redor do mundo, chegando a um total de 133 milhões de blogs indexados desde 2002. A princípio, considerando que esse tipo de ferramenta é “um fenômeno global”, a pesquisa aponta que há blogs publicados em 81 idiomas. Coletivamente, os usuários criam cerca de um milhão de posts diariamente, sendo que metade deles já está em seu segundo blog – alguns alcançaram a marca da oitava página pessoal – e 59% utiliza o serviço há mais de dois anos.
Com diversos infogramas e gráficos ilustrando as estatísticas, o Technorati informa que os blogueiros não são, de forma alguma, um grupo homogêneo, se dividindo em três setores: pessoal (de interesse particular), profissional (sobre seu mercado profissional em blog não-oficial) e corporativo (sobre e para uma empresa). A pesquisa aponta também que, de cada cinco blogs, quatro são de cunho pessoal.
Ainda nesta primeira parcial, o portal indica que dois terços dos blogueiros são homens, 70% possuem nível universitário e 44% são pais. Apesar de ter sido ministrada em inglês, os pesquisadores ressaltam que foram ouvidos usuários de 66 países e foi constatado que a maioria não vive próximo às áreas das grandes metrópoles. Em contrapartida a este dado, nos Estados Unidos, a maior parte dos internautas se concentra na área litorânea de São Francisco, seguido por Nova York, Chicago e Los Angeles. No geral, o estudo mostra, ainda, que os blogueiros norte-americanos possuem maior nível de escolaridade que a população geral da Internet.
Na segunda parte da pesquisa, publicada nesta terça-feira (23), o Technorati informa os motivos dos usuários optarem por ter um blog e o que é veiculado nas páginas. A expressão pessoal e o relacionamento com pessoas que têm as mesmas idéias foram apontadas como as principais razões para blogar, tendo a satisfação pessoal como o grande sinal de sucesso com o blog. Ainda, 42% dos usuários esperam receber retorno financeiro com seus blogs algum dia.
O relatório será detalhado ao longo de cinco dias e indicará como os internautas blogam, como funciona para aqueles que o fazem para obter lucro e, por fim, o espaço dado às marcas na “blogosfera”. Para ver e acompanhar o restante da pesquisa, clique aqui<http://www.technorati.com/blogging/state-of-the-blogosphere/>.
Publicado por: Leandro Marshall em: Maio 14, 2008
Da Efe, em Madri
Os jovens latino-americanos preferem usar a internet a assistir televisão, embora a maioria não disponha de acesso à rede em sua casa, segundo a primeira pesquisa realizada pela Universidade de Navarra e pelo programa Educared da Fundação Telefónica, na qual participaram 7 países da América Latina.
A Telefónica divulgou nesta sexta-feira (9) os primeiros dados do levantamento do qual participaram 22 mil estudantes de mais de 200 centros educativos de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela. A pesquisa foi realizado entre julho e outubro de 2007.
Trata-se do primeiro estudo que integra as diferentes tecnologias disponíveis para crianças e jovens –o maior do tipo realizado na América Latina.
Cerca de 42% dos jovens de 11 anos indagados preferem a internet à televisão e a porcentagem sobe para 60% no segmento de adolescentes entre 14 e 15 anos.
Publicado por: Leandro Marshall em: Abril 30, 2008
Reuters, em Londres
A internet vai ultrapassar a televisão e se tornará o maior alvo dos investimentos publicitários no Reino Unido em 2009, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira (7). A região tem o mercado de publicidade on-line mais desenvolvido do mundo, segundo informações do IAB (Internet Advertising Bureau).
De acordo com estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers e do World Advertising Research Centre, a rede movimentou cerca de US$ 5,6 bilhões em 2007. As empresas estimam que esse valor representa uma alta de 38% no ano passado, resultado do aumento na base de usuários, da introdução de laptops populares e do crescimento de serviços de televisão pela web.
“Com o aumento na velocidade da banda larga e os consumidores ficando mais tempo nos sites, o panorama para a publicidade on-line é cor de rosa –na verdade, nós esperamos que ela [a internet] ultrapasse a televisão em 2009, quando vai se tornar a maior mídia britânica”, afirma Guy Phillipson, executivo-chefe do IAB, em comunicado. Atualmente, a internet tem uma participação de 15,3% nos gastos com publicidade no Reino Unido, atrás da mídia impressa, com 19,9%, e da TV, que tem 21,8% do mercado. Segundo o estudo, a internet foi a maior responsável pelo crescimento nos gastos com publicidade em 2007 –o setor todo cresceu 4,3% em 2007. A colocação de banners e vídeos de publicidade cresceu 31%, enquanto a publicidade por sistemas de busca subiu 39% no país.
Publicado por: Leandro Marshall em: Abril 30, 2008
A maior parte dos grandes jornais americanos viu seus números de circulação caírem a taxas mais altas, um sinal de que a migração dos leitores para a internet pode estar ganhando velocidade, diz noticia do Wall Street Journal.
O números foram divulgados ontem pelo Audit Bureau of Circulations – 534 jornais diários caíram em media 3,6% nos dias úteis, no período de 6 meses encerrados em 31 de março.
A comparação é com o mesmo período do ano anterior.
O ritmo da queda se intensificou – os percentuais de declínio tinham sido de 2,1% e de 2,6% nos períodos anteriores.
Abaixo os 10 maiores jornais dos EUA, sua circulação diária e a variação em relação a 1 ano atrás. 29/04 Blue Bus
Publicado por: Leandro Marshall em: Abril 17, 2008
por Vittorino Andreoli
http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_declinio_de_nietzsche.html
Revista Mente & Cérebro
Um dos principais filósofos do século XIX, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche foi vítima de um distúrbio mental, provavelmente causado pela sífilis, que arruinou seus últimos anos de vida e cuja evolução pode ser percebida em suas obras.
A evolução da doença se divide em três fases: na primeira a infecção fica restrita aos órgãos genitais; na segunda, alastra-se pelo organismo; na terceira causa paralisia progressiva e demência. Nietzsche adoeceu em 1873, mas só se afastou da atividade docente na Universidade da Basiléia em 1879 − quando sua voz era quase inaudível para os alunos. Os sintomas da demência só vieram dez anos depois, mas os primeiros sinais de deterioração intelectual já aparecem nos seus textos de 1887.
O que se observa, a partir de A gênese da moral, é a passagem de um Nietzsche que escreve com força e determinação, de forma densa e ao mesmo tempo sintética, para “outro” que parece incapaz de afrontamentos, que se perde entre notas e apontamentos publicados postumamente e cuja organização lógica até hoje é alvo de críticas. Nessa mesma época, o filósofo alemão redige quatro panfletos pouco concisos, cheios de contradições, que parecem escritos com raiva, algo que os leitores não esperavam encontrar em volumes de filosofia.
Os quatro panfletos
O primeiro, Nietzsche contra Wagner, de 1888, chega a ofender o amigo músico. Depois de se aconselhar com seu editor, o filósofo corrige o texto, publica-o novamente com um prefácio, um epílogo e ainda um post scriptum. O segundo panfleto se chamaria Alegria de um psicólogo, mas por sugestão do editor recebeu o título O crepúsculo dos ídolos: ou a filosofia a golpes de martelo. Diz o autor nesse texto: “Não existe uma realidade supra-sensível, aquela imaginada pelos idealistas, não existe um mundo racional, não há um mundo moral, ainda que os moralistas continuem insistindo. Não existe nem mesmo o mundo das aparências. Definitivamente não existe nada”.
O anticristo é o terceiro panfleto e se limita a demolir o cristianismo. Aqui também as frases são carregadas de violência, ira e ausência de reflexão e de direção. O quarto e último panfleto é Ecce homo. O que significam os títulos desses dois textos? Uma referência a Cristo? Talvez O anticristo fosse somente um nome para indicar a figura mítica de Dionísio, que Nietzsche passou a encarnar em algumas cartas a amigos.
Outra idiossincrasia diz respeito ao emprego de expressões líricas, usadas de forma superficial em alguns textos, ao mesmo tempo que outros se aprofundavam na introspecção e na auto-reflexão. Estes elementos testemunham o declínio de uma mente brilhante, declínio este que começou exatamente no dia 5 de janeiro de 1889. Nesse dia Nietzsche teve início a enviar cartas aos amigos Jacob Burckhardt e Franz Overbeck. Ao primeiro escreveu: “Eu sou Ferdinand de Lesseps, eu sou Prado, eu sou Chambige [assassinos dos quais se ocupavam a imprensa parisiense], eu fui envolvido no lençol dos mortos duas vezes neste outono”. Overbeck recebeu uma carta com o mesmo conteúdo macabro. Em uma terceira correspondência, enviada ao músico Peter Gast, ele assina como “o crucificado”. À antiga amiga Cosima Wagner (mulher do compositor Wilhelm Richard Wagner), escreve: “Arianna, eu te amo”. Assinado: “Dionísio”.
Anos depois, historiador francês Daniel Halévy refaz o caminho de Overbeck em busca do amigo perturbado: “Overbeck parte para Turim. Encontra Nietzsche num quarto mobiliado, cantando e gritando sua glória, batendo no teclado do piano (…) Mais tarde, ao sair de casa, viram um homem que guiava uma carroça batendo no próprio cavalo; indignado, o filósofo colocou-se imediatamente entre os dois, imobilizando o homem com os braços e impedindo-o de continuar a bater no animal. Os transeuntes pararam para olhar, um agente policial interveio. Queriam retirá-lo daquela situação, mas ele se jogou no chão, parecia numa crise de delírio (…) O policial decidiu algemá-lo, mas Overbeck intercedeu. Falando em nome da Universidade da Basiléia, obteve permissão para levá-lo de volta para casa”.
Nietzsche estava completamente perturbado. Misturava canções, dirigia-se às pessoas por meio de cantigas. Um médico da Basiléia, cujo filho era grande apreciador das obras do filósofo, dedicou-se ao caso com particular atenção e o transferiu para uma clínica psiquiátrica em Jena, de onde saiu em 1897 para viver com a mãe em Naumburg. Com a morte dela, mudou-se para a casa da irmã em Weimar, onde permaneceu até a morte em 1900. Desses anos sabemos muito pouco. É possível que ele tenha chegado à forma grave de demência, mas o assunto era delicado demais para ser comentado na época.