Trair dá vantagem evolutiva a fêmeas?

Sarah Fecht
 
 
Flickr/grandslam05
 

Do ponto de vista evolutivo, é fácil explicar a infidelidade entre machos: ao ter muitas parceiras, eles podem fertilizar mais fêmeas e gerar mais filhos. Mas por que fêmeas, mesmo que só consigam ter no máximo um filho por ano, também traem? Uma das principais hipóteses evolutivas para a questão sugere que uma fêmea que tenha relações com vários machos garante a diversidade genética e a qualidade de sua prole: em teoria, “filhos de alta qualidade” podem gerar mais netos no futuro. Agora, um estudo de 17 anos, publicado na edição de junho do The American Naturalist, desafia a hipótese.

“Esse é um dos mais cuidadosos estudos que verifica se a poligamia é adaptativa em fêmeas”, descreve Tommaso Pizzari, biólogo da University of Oxford que não se envolveu na pesquisa. “A resposta é: não exatamente”.

Estudos anteriores testaram a “hipótese da qualidade” ao comparar a prole legítima e ilegítima de fêmeas promíscuas, verificarando qual prole era maior  e qual viveu mais. Mas, segundo Jane Reid, bióloga da University of Aberdeen, na Escócia, e autora do novo estudo,  uma maneira melhor de compreender porque a promiscuidade feminina evoluiu é determinar se a prole ilegítima de fato tem mais filhos.

Jane e sua equipe estudaram a população isolada de tico-ticos cantadores selvagens da Ilha de Mandarte, no Canadá – assim como suas contrapartes continentais, essas aves são socialmente monogâmicas. Machos e fêmeas se unem durante todo o período de acasalamento e trabalham juntos para alimentar e defender os filhotes. Mas nem sempre eles são fiéis: testes sanguíneos mostraram que 28% dos filhotes eram de outros machos.

Após analisarem três gerações de tico-ticos cantadores (com mais de 2.300 filhotes),  os pesquisadores descobriram que os filhotes ilegítimos se saíam pior e produziam, em média, cerca de metade da prole. “Não é o que as pessoas esperavam”, desabafa Jane.   

David Westmeat, ecólogo comportamental da University of Kentucky, concorda: “Essencialmente, o estudo mostra que não há evidência para uma hipótese bem popular”. Mas a suspeita ainda não está morta, porque os resultados precisam ser confirmados em outras populações e em outras espécies. Westneat e Pizzari também expressam preocupação com o fato de o estudo ter sido feito em uma ilha, já que populações pequenas e isoladas tendem a evoluir de maneiras diferentes.

Ainda assim, os cientistas concordam que a promiscuidade feminina não parece ter vantagens reprodutivas para a maioria dos tico-ticos cantadores da Ilha de Mandarte. Então qual é o sentido em trair, se isso não ajuda a ter mais sucesso evolutivo?

Algumas teorias põem a culpa nos meninos: a promiscuidade feminina pode ser um subproduto ecológico da masculina. Se os machos ficam sob forte pressão para procriar com várias fêmeas, em um ambiente fechado as fêmeas podem ser forçadas a acasalar com vários machos.

Jane está investigando também se a promiscuidade feminina é um subproduto genético da versão masculina. Se existem genes que encorajam um macho a ser promíscuo, ele pode passar esses genes adiante para suas filhas, mesmo que elas não se beneficiem com o comportamento. Um estudo recente com mandarins encontrou apoio para essa hipótese. Se a suspeita for confirmada, a equipe de Jane gostaria de tentar localizar os genes que contribuem para comportamentos promíscuos.

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