A morte de um šїmßØĽð

Leandro Marshall

Professor Universitário

Doutor em Ciências da Comunicação – PUC/RS

Pós-Doutor em Sociologia– UnB/DF

Mestre em Teorias da Comunicação – UMESP/SP

Especialista em Filosofia – UnB/DF (em conclusão)

imagesCA9P5ZEG

27/03/13 

Não há nada que seja mais representativo do fim de uma época do que a queda de seus símbolos. Isto aconteceu no fim do absolutismo, em 1789, com a tomada da Bastilha, na França. Também pode ser visto durante a revolução bolchevique, na Rússia, em 1919, com a derrubada dos símbolos religiosos. Voltou a ocorrer no colapso do comunismo, com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Reapareceu no fim do domínio do império de Sadam Hussein, durante a 2ª Guerra do Golfo, transmitida ao vivo pela televisão, em 2003, como se fosse um jogo de videogame. E esteve mais uma vez presente durante o esplendor da Primavera Árabe, em 2007, quando o povo queimou, em praça pública, as efígies das dinastias seculares.

Nestes primeiros anos do século XXI, assistimos o fim do ciclo do estado do bem-estar social na União Europeia, com uma combinação sistêmica de queda do PIB, desemprego crescente, endividamento público elevado, escassez de crédito, fuga de capitais e redução generalizada das notas dadas por agências de risco (ratings) das nações, gerando uma crise de confiança internacional. O símbolo maior desta crise foi, sem dúvida, a imagem da escultura Vênus de Milo (originária da Grécia), na capa da revista alemã Focus, em 2010, acusando a própria Grécia, bem como Portugal, Espanha e Itália de estarem matando o Euro. A imagem correu o mundo e provocou um misto de euforia e indignação entre os europeus.

O fato é que os sinais de que estamos vivendo a mudança de uma era são absolutamente categóricos. Não há dia em que os indicadores ou os dados econômicos não indiquem piora do estado de saúde da economia ocidental, impasses na ordem política internacional, novos cenários para a ciência e tecnologia, aventuras estéticas no mundo da arte e da cultura e transformações significativas nos processos sociais, provocados pelas tecnologias da informação e da comunicação.

A meu ver, um dos acontecimentos mais significativos deste século XXI aconteceu há um ano atrás. No dia 14 de março de 2012, a empresa produtora da Encyclopaedia Britannica anunciou o fim da publicação impressa, depois de 244 anos de circulação. Isto representa, na minha visão, o símbolo categórico do fim de uma dos mais pujantes capítulos da história mundial.

O compêndio de 32 volumes da enciclopédia foi mantido apenas no formato virtual, sendo atualizada, segundo seus editores, a cada 20 minutos, e o acesso dos usuários ao acervo de conhecimentos será mantido mediante uma taxa anual de setenta dólares.

É verdade que a Enciclopédia já existia no mundo digital desde 1994, tendo sido a primeira a migrar para a World Web Wide. A questão, entretanto, não está no fim do conhecimento disponibilizado (de forma impressa) pela famosa publicação, símbolo de tantas gerações no Brasil e no mundo.

O significado desta ‘morte’ da edição impressa reside, na verdade, no caráter implosivo dos valores iluministas e renascentistas, marcados pelo ideal enciclopedista europeu do conhecimento humano e do saber natural para a estruturação utópica dos melhor dos mundos. Não foram poucos os filósofos e os cientistas empenhados neste grande projeto mundano, energizados permanentemente pelo mito de Prometeu e pelas promessas redencionistas dos paradigmas modernos.

O fim da Encyclopaedia Britannica parece, portanto, neste momento, o encerramento do próprio projeto da modernidade pelo fato de que a materialização de nossa utopia dependida necessariamente do processo de sistematização e de compêndio do conhecimento humano. Quando nossa referência-mestre se dissipa nas redes inquietas do mundo digital passamos a nos sentir um pouco órfãos deste grande ideal iluminista.

É verdade que o conhecimento acumulado ao longo destes 244 anos da Encyclopaedia Britannica continuará vivo e sendo retroalimentado a cada 20 minutos, estando disponível para as pessoas, em todo o planeta, sempre que houver um computador conectado à internet. E que as formas das novas gerações estabelecerem procedimentos de acesso, processamento, armazenamento e consumo de informações e conhecimento serão, naturalmente, diferentes das gerações que sonharam as belas utopias dos séculos XVIII e XIX.

No final, o que mais importa, me parece, não é saber onde estarão os livros e o conhecimento acumulado, qual a suas novas formas de leitura e reprodução, ou no que se transformaram as bibliotecas e as enciclopédias. O que importa, realmente, será descobrir, neste novo eldorado eletrônico e digital, o que estão a anunciar os símbolos dos novos tempos.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s