O encéfalo e a era digital

Nossa frágil humanidade e as consequências do uso excessivo de produtos digitais

Jorge A. Quillfeldt

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O encéfalo humano – que reúne dentro da caixa craniana, o cérebro, o cerebelo e o tronco – é, até prova em contrário, o pedaço de matéria organizada mais complexa em todo o universo conhecido. Muitos consideram o encéfalo uma espécie de apogeu da evolução da vida, mas não deixa também de ser um triunfo da história da matéria que compõe o próprio Universo. Quase todos os átomos da Tabela Periódica foram gerados por nucleossíntese atômica no interior de antigas estrelas que depois explodiram como supernovas, liberando essa matéria que, então, pôde reorganizar-se em novas estrelas – agora com planetas e moléculas de todo tipo. Sobre esse substrato material a vida surgiu e desenvolveu-se, pelo menos na Terra.

Não podemos resistir à poética observação do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan quando explica que somos basicamente a matéria das estrelas… contemplando a si mesma! Essa minúscula, mas inquieta, massa de tecido neural pesa pouco mais de um quilo – cerca de 2% do nosso peso – mas consome mais de 20% da energia disponível, quase que apenas para manter a custosa comunicação eletroquímica entre os neurônios. O tecido nervoso difere de todos os outros na medida em que, nele, a diferenciação é a regra, não havendo duas células idênticas. E, além disso, conectando-se – estejam próximas ou distantes entre si – nos mais variados padrões de redes imagináveis. Outros tecidos do corpo são bem diferentes: compõem-se de células relativamente homogêneas, cada uma fazendo mais ou menos a mesma coisa e, quase sempre, simultaneamente, ou seja, operam em massa. No tecido nervoso a ação celular massiva não é comum, exceto em situações patológicas, como numa convulsão.

Cada um dos mais de 80 bilhões de neurônios dessa verdadeira “galáxia” neural que é o encéfalo humano recebe, de outros neurônios, milhares de conexões – as chamadas sinapses, computando o conjunto de sinais recebidos como se fosse uma “pesquisa de opinião”, e decidindo se enviará ou não, por sua vez, um potencial de ação ao longo de seu axônio rumo a alguns ou muitos neurônios-alvo. Cada um desses neurônios computará essa minúscula contribuição em meio às milhares de outras que também recebe, decidindo se dispara ou não. Há cerca de mil tipos de células diferentes no encéfalo, mas mesmo células similares podem produzir diferentes ações devido à forma como se interconectam, o que explica a complexidade desse órgão. A mente humana é um amálgama das diversas funções cognitivas do encéfalo, que além das sensações e movimentos, envolve atenção, processamento visuoespacial, funções executivas (antecipação, solução de problemas e tomada de decisões), emoções (motivação/inibição), sem esquecer da memória e da linguagem.

O Homo sapiens adquiriu essas capacidades ao longo da evolução por seleção natural, seleção essa que, ao contrário do que muitos pensam, não deixou de atuar sobre as populações humanas – mutações ocorrem o tempo todo – embora algumas pressões seletivas tenham sido efetivamente suprimidas no contexto das sociedades organizadas. Mas aonde isso nos leva? Uma preocupação crescente nos últimos anos é saber como o encéfalo humano está lidando com o novo ambiente onipresente das tecnologias digitais de comunicação – que, muito embora tenha revolucionado nossas vidas, cada vez consome mais tempo e envolvimento das pessoas, pelo menos daquelas que têm condições financeiras de acessá-lo (a maioria da humanidade nem sonha com isso). O ambiente de hoje não tem precedentes, e, entre os principais responsáveis pelas mudanças comportamentais são apontadas a internet – especialmente as redes sociais – e os videogames interativos. E embora haja aspectos positivos nesses recursos, suas limitações ficam exacerbadas com o uso prolongado, que também promove o estresse ou mesmo a dependência (análoga ao efeito de drogas).

O chamado Transtorno de Dependência da Internet pode integrar a próxima edição do Manual dos Transtornos Psiquiátricos (DSM-5). Até pouco tempo atrás essas eram meras opiniões subjetivas, mas agora começam a aparecer as primeiras evidências de estudos com usuários pesados: redução da atenção, diminuição de empatia, perda da identidade e autoestima, aumento do estresse e da depressão e diminuição da aversão ao risco, aumento da obesidade. Alguns desses fatores já foram correlacionadas com micromodificações nos encéfalos dos usuários, mas isso não quer dizer muito, pois nossos encéfalos sempre se reorganizam plasticamente quando interagem com o mundo – é exatamente para isso que existem. Mesmo assim, já justifica que novos estudos sejam realizados. A solidão ou a ilusão de companhia experimentada por muitos de nós no oceano de indivíduos sem identidade da grande rede é, sobretudo, fruto da forma como a utilizarmos.

A comunicação mútua até existe, mas várias de suas dimensões simplesmente desaparecem, pois, afora o uso da palavra escrita, a comunicação humana também emprega – e com maior impacto – o contacto visual, a linguagem corporal não verbal, as variações na entonação e volume da voz, e o próprio contacto físico direto (toque, abraço, etc.). Nenhuma dessas dimensões extras está disponível no Facebook, diz Susan Greenfield, uma das principais críticas dessa tendência. Talvez seja hora de refletirmos sobre como lidar com essa realidade inédita, e nunca é demais um lembrete acerca de nossa frágil humanidade, quase sempre a nos escapar entre os dedos…

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