Aves canoras elucidam importância do balbucio

passaros

16/07/2013 – http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/07/1311375-aves-canoras-elucidam-importancia-do-balbucio.shtml
DO “NEW YORK TIMES” – Iva Ljubicic

Os bebês começam a falar meses depois de começarem a entender a linguagem. Quando estão aprendendo a falar, eles balbuciam, repetindo a mesma sílaba (“da-da-da”) ou combinando sílabas numa sequência (“da-do-da-do”). Mas o que os bebês estão fazendo quando balbuciam? Por que eles levam tanto tempo para aprender a falar?

Uma fonte surpreendente está trazendo algumas respostas: as aves canoras.

Pesquisadores que estudam a linguagem da primeira infância e cientistas especializados no canto de pássaros publicaram um novo estudo sugerindo que aprender as transições entre sílabas seja o gargalo crucial entre o balbuciar e o falar. “Descobrimos um novo componente do desenvolvimento vocal, algo que ainda não tinha sido identificado”, contou a principal autora do estudo, a psicóloga e pesquisadora Dina Lipkind, do Hunter College, de Manhattan.

“Estamos demonstrando que os bebês balbuciam não apenas para aprender sons, mas para aprender as transições entre os sons.”

Pássaros e bebês precisam se esforçar muito para aprender novos padrões sonoros; pássaro mandarim ao lado de um modelo que o ajuda a aprender a cantar

Os resultados proporcionam “insights” sobre a aquisição da linguagem e podem, eventualmente, ajudar a lançar luz sobre os distúrbios da fala. Inicialmente, porém, os cientistas responsáveis pelas descobertas estavam estudando pássaros. “Quando comecei com essa pesquisa, não imaginava que fosse aprender sobre a fonação humana”, disse Ofer Tchernichovski, pesquisador do canto de pássaros, também do Hunter College.

Ele e Lipkind estavam ensinando jovens pássaros mandarins, presos em caixas à prova de som, a modificar a ordem das sílabas em seus cantos. Para aprender um canto novo, os pássaros tiveram que treinar milhares de vezes por dia, durante semanas. O maior obstáculo pareciam ser as transições, já que apenas as sílabas foram mudadas.

Um colaborador da pesquisa, Kazuo Okanoya, então do Instituto Riken de Ciência Cerebral, no Japão, constatou o mesmo efeito em pássaros manon que viviam em ambientes “mais naturais”: grandes aviários cheios de outros pássaros fringilídeos.

Tchernichovski e Gary Marcus, que estuda o aprendizado da linguagem por bebês na Universidade de Nova York e que ajudou a idealizar o estudo, discutiram os resultados com relação aos bebês humanos.

Eles constataram que, quando os bebês aprendem uma sílaba nova, eles primeiro tendem a repeti-la. Então, como os pássaros, começam a acrescentá-la ao início ou ao final de sequências de sílabas, mais tarde começando a inseri-la entre outras sílabas.

Como é o caso das aves, dominar as transições entre sílabas novas e já conhecidas é um processo trabalhoso para os bebês. Isso pode ajudar a explicar por que as crianças continuam a balbuciar, mesmo quando começam a entender a linguagem.

O estudo também pode reacender a discussão sobre se o canto dos pássaros pode ou não ser usado para entender a fala humana. Aparentemente, as duas coisas têm pouco em comum. Mas, recentemente, pesquisadores identificaram muitos paralelos entre elas.

As aves e os humanos compartilham blocos moleculares comuns, incluindo o gene FOXP2, que chamou muita atenção uma década atrás, quando foi identificado como o responsável pelo misterioso distúrbio de fala dos membros de uma família humana.

Parece que aves e humanos compartilham estruturas cerebrais cruciais para o canto e a fala e que ambos criam frases a partir de “sílabas”. Ambos “balbuciam” durante um período crítico de aprendizado e ambos são “aprendizes vocais”, aprendendo a cantar ou a falar com progenitores ou professores.

A aprendizagem vocal é rara entre os animais. Nem mesmo os parentes evolutivos mais próximos dos humanos passam por ela.

Mas os pássaros canoros, sim. Além disso, pesquisadores podem realizar experimentos com pássaros que não poderiam fazer com humanos. Lipkind exemplificou: “Não podemos prender bebês em caixas à prova de som”.

Sarah Wooley, da Universidade Columbia, pesquisa o canto de pássaros. Ela concorda que os paralelos são interessantes.

“Ninguém está afirmando que o canto dos pássaros seja uma linguagem”, comentou. “Mas há muitos paralelos. Temos aqui a oportunidade de modelar a aprendizagem vocal, testando o funcionamento de regras entre as aves e traçando previsões em relação à aprendizagem nos humanos.”

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