Jovens aborígines inventam língua própria

30/07/2013 

DO “NEW YORK TIMES”

The New York TimesHá muitas línguas morrendo. Mas pelo menos uma nasceu recentemente, criada por jovens que moram numa remota aldeia do norte da Austrália.

A linguista Carmel O’Shannessy, da Universidade de Michigan, estuda há mais de uma década a fala dessas pessoas e concluiu que elas não empregam nem um dialeto nem um crioulo (mistura de idiomas), mas sim uma língua nova, com regras gramaticais únicas.

A língua, chamada warlpiri rampaku (warlpiri leve), é falada apenas por pessoas de até 35 anos em Lajamanu, aldeia com cerca de 700 pessoas no Território do Norte, na Austrália. Ao todo, cerca de 350 pessoas a tem como língua nativa. O mais recente estudo de O’Shannessy sobre o warlpiri leve saiu na edição de junho da revista “Language”.

Todos em Lajamanu falam o warlpiri “forte”, língua aborígene sem ligação com o inglês, partilhada entre cerca de 4.000 pessoas em várias aldeias australianas. Muitas também falam o kriol, um crioulo derivado do inglês, amplamente usado no norte da Austrália por pessoas aborígenes com línguas nativas variadas.

O isolamento de Lajamanu pode ter algo a ver com a criação de um novo jeito de falar. A aldeia fica a cerca de 900 km ao sul de Darwin, e o centro comercial mais próximo é Katherine, a cerca de 550 quilômetros ao norte.

Os moradores de Lajamanu costumam fazer aquilo que os linguistas chamam de intercâmbio de códigos, misturando as línguas ou passando de um idioma a outro no meio da conversa. Muitas palavras do warlpiri leve são derivadas do inglês ou do kriol.

  Noressa White/The New York Times  
Jovens em Lajamanu, no norte da Austrália, falam o warlpiri leve; à esq., Carmel O'Shannessy com indígenas
Jovens em Lajamanu, no norte da Austrália, falam o warlpiri leve; à esq., Carmel O’Shannessy com indígenas

Mas o warlpiri leve não é meramente uma combinação de palavras de línguas diferentes.

O’Shannessy oferece esse exemplo: “Nganimpa-ng gen wi-m si-m worm mai aus-ria” (também vimos vermes na minha casa). É fácil ver substantivos derivados do inglês (como “worm”, que significa “verme”). Mas a terminação “-ria” em “aus” (casa, do inglês “house”) significa “em” e vem do warlpiri. A terminação “-m” no verbo “si” (ver, do inglês “see”) indica que o fato está acontecendo agora ou já aconteceu, um tempo “presente ou pretérito, mas não futuro” que não existe nem em inglês nem em warlpiri. Esse é um jeito de falar tão diferente do warlpiri ou do kriol que constitui um novo idioma.

O desenvolvimento da língua, diz O’Shannessy, começou com pais usando o tatibitate com seus filhos numa combinação das três línguas. Mas as crianças assumiram essa linguagem como seu idioma nativo ao acrescentarem inovações radicais na sintaxe, especialmente no uso das estruturas verbais, que não estão presentes em nenhuma das línguas de origem.

Não está inteiramente claro por que uma nova língua se desenvolveu neste momento e neste lugar. O’Shannessy sugere que forças sutis possam ter influído. “Acho que a identidade desempenha um papel”‘, disse ela. “Depois que as crianças criaram o novo sistema, ele se tornou um marcador da sua identidade como jovens warlpiris da Comunidade Lajamanu.”

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