Delírios na idade da pedra

 

Estudos revelam que artistas pré-históricos pintavam sob a influência de drogas e usavam seres imaginários e mundos sobrenaturais para representar a religião

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Juliana Tiraboschi

 

Os mundos da música e do cinema vivem fornecendo argumentos para quem associa arte a drogas. De cara limpa, Amy Winehouse seria uma cantora tão cativante? Sem ter passado por um longo período de excessos, Robert Downey Jr. teria se tornado um dos mais requisitados atores de Hollywood? Pode ser que não, mas uma nova pesquisa traz comprovações de que o convívio de artistas com as drogas é muito mais antigo do que se imaginava. Depois de estudar pinturas rupestres de até 80 mil anos, cientistas da Universidade Nacional Autônoma do México e da Universidade de Tóquio, no Japão, concluíram que boa parte da arte da Idade da Pedra foi produzida sob o efeito de substâncias alucinógenas.

VIAGEM
Cientistas associam espirais e desenhos com seres
imaginários a estados alterados de consciência

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Para defender a tese, o autor principal do estudo, o alemão Tom Froese, que atua na universidade mexicana, afirma que padrões geométricos e ordenados encontrados na arte rupestre não são aleatórios, mas provocados por estados alterados de consciência. Além de serem iguais em peças de épocas e continentes diferentes, alguns desses padrões assemelham-se a desenhos encontrados em pesquisas recentes com pessoas que consumiram substâncias alucinógenas.

Exemplo disso é uma pesquisa feita por cientistas americanos nos anos 1950. Eles estudavam os efeitos da mescalina, alucinógeno extraído do cacto peiote. Os pesquisadores pediram que voluntários que haviam ingerido a substância desenhassem as imagens que viam. Os resultados foram espirais, linhas paralelas e outras formas geométricas muito comuns em peças encontradas por arqueólogos e antropólogos que trabalham com povos nativos. “Se dermos canetas nas mãos de chimpanzés, bonobos ou até de crianças humanas, eles não desenham padrões geométricos. Então deve haver outros fatores em jogo que não a aleatoriedade”, diz Froese.

O uso de substâncias químicas que alteram o cérebro é visto como algo natural pelo grupo que fez o levantamento. É um hábito adotado até por alguns animais. Há elefantes e macacos, por exemplo, que comem frutas fermentadas ou se esfregam em plantas alucinógenas com o intuito de ficar “chapados”. Apesar disso, os pesquisadores reconhecem que, em alguns casos, esses estados alterados de consciência podem ser alcançados sem o uso de químicos. É possível chegar lá por meio de rituais e ritos de passagem, como os praticados pelos índios americanos com meninos e meninas na puberdade. “Esses ritos seguem a fórmula de separação do indivíduo de seu grupo e o isolamento. O senso de pertencimento a um universo desaparece, e isso provoca novas percepções”, afirma o pesquisador.
Além das ideias expostas na pesquisa, os cientistas defendem que a arte desse primeiro grupo de pintores abstratos seja mais valorizada. Afinal, em torno deles havia árvores, animais, o Sol, as formações rochosas e uma infinidade de objetos que poderiam inspirar desenhos. Em vez disso, eles optaram pelos padrões. Outro estudo mostra que esse desapego às formas mais pictóricas de desenho abriu caminho para artistas bem mais recentes, que também não se contentavam em registrar o mundo visível à sua volta.

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SOBRENATURAL
Pinturas e gravuras nas montanhas Apalaches, nos EUA, mostram figuras
fictícias que mesclam imagens humanas, animais e personagens em transformação

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Pesquisadores da Universidade do Tennessee (EUA) analisaram pinturas e gravuras em pedras encontradas em uma região das montanhas Apalaches, nos Estados do Kentucky, Tennessee e Alabama. Os desenhos estudados datam de seis mil anos atrás e mostram que os povos que habitavam o local já tinham uma noção de universo e “religião” e dividiam o mundo em três dimensões: a superior, habitada por seres celestiais; a mediana, da natureza; e a inferior, caracterizada pelo perigo, pela escuridão e associada a morte, transformação e renovação.

Nas paredes das cavernas, essa visão do mundo se refletia em desenhos de seres imaginários e noções de um mundo sobrenatural. “Por meio de registros etnográficos e de artefatos decorados, sabemos que esse universo em três dimensões era uma parte central de muitas filosofias religiosas na América do Norte e que os americanos nativos eram e ainda são um povo extremamente religioso”, diz Jan Simek, professor do departamento de antropologia da Universidade do Tennessee e autor principal da pesquisa. Como os pintores “chapados” de 74 mil anos antes, os artistas plásticos do período estavam livres de registrar meramente o mundo visível. Podiam se concentrar apenas nas formas de registrar sua fé.

Na comparação entre os dois estudos das universidades, há um dado curioso para os apreciadores e historiadores de arte contemporâneos. Trata-se da inversão na evolução das escolas artísticas ao longo do tempo. Na pré-história, o abstracionismo vem antes da arte sacra.

Fotos: David Muench/Corbis; Tom Froese; Alan Cressler

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