Notícias do milênio

Eduardo Galeano

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Anuncia-se que logo teremos dedos biônicos para acariciar a Lua, ainda sem data, e já se sabe que dentro de quinze anos a cadeia Hilton inaugurará seu primeiro grande hotel sideral.

“Já resplandecem, nas naves espaciais, os anúncios luminosos da Pizza Hut.  Aqui, na terra o “O Grito”, o quadro de Edward Munch, esse desabafo de um artista atormentado pelo que estava a caminho, foi reciclado pela publicidade para um relançamento dos automóveis Pontiac. Em Berlim, acaba de completar seu primeiro aninho de vida um bem-sucedido shopping center chamado Salvador Allende, de 8 mil metros quadrados, em uma rua que se chama Pablo Neruda.

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Os robôs não só substituem a mão-de-obra humana nas fábricas, como também estão deixando sem trabalho o punho de obra dos ringues de boxe.  Já são celebrados combates de robôs em Las Vegas, em diversas categorias que vão desde os pesos leves (11 quilos) até os superpesados (221 quilos).  Para a alegria do respeitável público, os boxeadores cibernéticos se estripam a golpes, com seus braços mecânicos armados de machados e serras.

Parece uma parábola de toda a história da humanidade, mas não é mais que uma experiência científica recente. Dentro de uma caixa, coloca-se um rato, e diante do rato, se ergue um muro virtual. O animalzinho, intimidado por essa parede que não existe, dá voltas sempre no mesmo lugar.

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Os laboratórios Monsanto conseguiram que os vegetais, geneticamente modificados, nos forneçam comida de plástico. A empresa DuPont prepara cultivos de poliéster em seus campos de milho.

Cinqüenta mil manifestantes fazem a vida impossível para os donos do comércio mundial, reunidos em Seatle. Lá, o presidente do planeta pronuncia um discurso: ameaça punir os países que não respeitarem os direitos dos trabalhadores. McDonald’s opera em todo o mundo e, em todo o mundo, proíbe que seus empregados se afiliem a qualquer sindicato.

Fast food: uma nova cadeia japonesa de restaurantes está competindo com sucesso com o McDonald’s. Os clientes não pagam por prato, mas, sim, por tempo.  Quanto mais rápido comem, menos pagam. O minuto custa US$ 0,30. Só em Tóquio, já funcionam 180 desses postos de gasolina humanos.

Fast life: espetacular auge de vendas da droga Ritalina, nos Estados Unidos.  O Ritalina atua no cérebro das crianças muito nervosas e consegue que fiquem quietinhas diante da televisão.  Outro laboratório está preparando o Prozac infantil, com gosto de menta.

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Liberdade de expressão: Disney devora a ABC, Time Wamer traga a CNN, Viacom, come a CBS com garfo e faca. Há 15 anos, 50 empresas controlavam a comunicação nos Estados Unidos.  Agora, são oito. Um monopólio compartilhado, que pratica o monólogo em escala planetária.

Comparando os dados de diversos organismos internacionais (PNUD, Unicef, FAO, OMS, Intenational Institute for Strategic Studies), chega-se à conclusão de que o dinheiro que o mundo destina a gastos militares durante 11 dias bastaria para alimentar e curar todas as crianças famintas e doentes do planeta, e ainda sobrariam 354 dias para o nobre ofício de matar.

A organização Veterinários sem Fronteiras compara uma galinha a um avião de guerra.  A galinha custa US$ 5 e o avião, US$ 7 milhões, a galinha desenvolve uma velocidade inicial de um quilômetro por dia e o avião duplica a velocidade do som, a galinha põe um ovo por dia e o avião põe 14 bombas por viagem, que podem matar mais de mil pessoas.

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Segundo as Nações Unidas (PNUD), as três pessoas mais ricas do mundo possuem um patrimônio superior à soma dos PIBs de 48 países.

No início do milênio, a população mundial chega aos 8 bilhões. A terra produz alimentos de sobra para dar de comer a todas as bocas, mas há 1,3 milhão de famintos.  “Pobres haverá sempre, Jesus disse”, explica o teólogo argentino Carlos Menem.

Globalização.  Salário de um operário da General Motors nos Estados Unidos: US$ 19 por hora. Salário de um operário da General Motors, do outro lado da fronteira: US$ 1,5 por hora.

Liberdade de comércio.  De acordo com a revista The Economist, o valor real das matérias-primas que os países pobres vendem é hoje seis vezes menor que há 80 anos.  Muito antes, Jean Jacques Rousseau havia escrito: “Nas relações entre o forte e débil, a liberdade oprime”.

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Os países riquíssimos anunciam que perdoarão as dívidas incobráveis dos países pobríssimos, sempre e quando intensificarem suas políticas de ajuste, ou seja, que reduzam ainda mais os salários, já tão nanicos que dá para sentir inveja dos tempos em que a escravidão se chamava escravidão.

Os esbanjamentos da sociedade de consumo, os delírios tecnológicos e as pirotecnias militares estão enlouquecendo o clima do mundo. Mas chamam-se “catástrofes naturais” as inundações, furacões, nevascas, incêndios e secas que, de acordo com o Worldwatch Institute, estão expulsando de seus lares, a cada ano, 300 milhões de pessoas.

A revista The Economist divulga estimativa das vítimas dos testes nucleares na indústria de armamentos.  De acordo com o cálculo da especialista Rosalie Berteil, as explosões nucleares mataram, adoentaram ou deformaram, direta ou indiretamente, nada menos que 1,2 milhão de pessoas, ao longo de meio século.

Três organizações internacionais – World Conservation Monitoring Center, WWF International e New Economic Foundation – afirmam que o mundo perdeu, nos últimos 30 anos, quase um terço de sua riqueza natural. É o pior extermínio da natureza desde a época dos dinossauros.  Disse Woody Allen, meu ideólogo preferido: “O futuro me preocupa, porque é o lugar onde penso passar o resto de minha vida”.

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