Por que dizemos palavrões

 
Suzana Herculano-Houzel
Revistaq Scientific American – Mente e Cérebro 
© Olly/Shutterstock
 

Eles existem aparentemente em todos os idiomas e são sons a princípio como quaisquer outros, representados por sequências de letras simples. Mas seu significado é inconfundível: palavrões são os itens do vernáculo reservados para comunicar injúrias, insultos e demais conteúdos emocionalmente carregados ou ofensivos.

O que torna palavrões tão distintos das outras palavras? Seu significado, seu som, as associações que construímos a seu redor, tudo isso junto? Não deveria ser seu significado, ou eufemismos seriam sempre inúteis. Mas não são: embora o conteúdo da expressão seja claro, “número dois” é socialmente preferível a “cocô” (também substituível em frases mais formais por um elegante “fezes”), e “meee…leca” soa bem menos ofensivo do que o sonoro “meeerda” que ele substitui.

O uso de eufemismos tem um valor social importante, claro, ao demonstrar que o locutor fez o esforço de poupar seus vizinhos do som de um palavrão. Mas isso não responde à pergunta: o que torna algumas palavras especiais, se o conteúdo transmitido é o mesmo? 

Foi pensando nisso que dois pesquisadores na Inglaterra pediram a voluntários (devidamente informados) para ler em voz alta os dois palavrões mais ofensivos da língua inglesa, “fuck” e “cunt”, e seus eufemismos “f-word” e “c-word”, enquanto a reação emocional de cada voluntário era medida por um aparelho semelhante a um polígrafo. 

O resultado não foi surpresa nenhuma: se pronunciar palavras neutras ou seus “eufemismos” (como “door” e “d-word”) produz uma resposta emocional apenas modesta, a leitura de palavrões em voz alta causa uma reação quatro vezes mais forte. E eufemismos cumprem sua função, provocando uma resposta que é apenas a metade da causada pelo palavrão correspondente – mas, ainda assim, duas vezes maior do que termos neutros.

Palavrões, portanto, são provocativos por causa de sua associação emocional, que desperta reações automáticas mesmo fora de contexto: são aqueles sons que aprendemos a associar a emoções fortes específicas. Há evidências, inclusive, de que xingamentos são produzidos pelo córtex cingulado, um córtex “motor emocional”, e não pelo córtex pré-motor que articula todo o resto da linguagem – o que explica por que algumas vítimas de derrame perdem a fala, mas não seus palavrões.

O valor emocional das palavras, aprendido por associação, fica evidente também em comparação com outras línguas. Palavrões estrangeiros incomodam bem menos, prova de que o impacto não vem do significado, mas do condicionamento emocional ao som ou forma visual dessas palavras. Aliás, justamente por ter menos associações emocionais, é bem mais confortável fazer confissões embaraçosas em outro idioma.

Por causa da resposta emocional desencadeada automaticamente, palavrões têm grande impacto social, tanto para o bem quanto para o mal. Mas também têm grande utilidade quando se está sozinho. Prenda o dedo na porta, sem qualquer audiência, e você dificilmente ficará quieto ou gritará “malvada!”; é muito mais provável que nessa hora você descubra a extensão do seu acervo de expletivos escabrosos. De fato, recorremos a esses termos especiais para “colocar para fora” dor, tanto física quanto emocional, mesmo quando não há plateia. E com resultados: há inclusive especialistas que recomendam o uso terapêutico de palavrões para aliviar a dor. Eufemismos, nessa hora, são inúteis…

(18-10-2012)

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