Crise econômica cria superavit de tapas e gritos em casa

08/08/2013

MARCELO LEITE

Criança sofre, todo mundo sabe. Também é óbvio que elas sofrem mais em época de crise, como na recessão americana de 2008 e 2009, nas mãos de mães estressadas. Mas será que todas sofrem da mesma maneira?

Não, responde um estudo publicado na revista “PNAS”, da Academia de Ciências dos EUA. Sofrem mais não os filhos de mães desempregadas, mas de mães portadoras de uma variante de gene associada com impulsividade.

Mais contraintuitivo ainda é outro achado do trabalho realizado em quatro universidades americanas (NYU, Princeton, Columbia e Penn State): quando a situação econômica melhora, essas mães impulsivas protagonizam menos episódios de agressão verbal e física contra filhos do que as portadoras da outra versão do gene.

“Nosso estudo demonstra que os impactos dos genes e do ambiente não atuam independentemente, mas são deflagrados um pelo outro, pelo menos no que se refere ao comportamento materno abusivo”, diz Dohoon Lee, primeiro autor do artigo.

Para chegar a essas conclusões, o grupo usou dados do Estudo sobre Famílias Frágeis e Bem-Estar Infantil (FFS), de Princeton e Columbia, que acompanha 5.000 crianças nascidas entre 1998 e 2000 em 20 cidades americanas.

As mães foram entrevistadas sobre como tratavam os filhos quando eles tinham 3, 5 e 9 anos. O comportamento materno agressivo foi classificado com uma escala padronizada que abrange abusos verbais (como gritos) e físicos (como tapas e surras).

Amostras do DNA das mães foram colhidas e testadas para verificar qual versão do gene DRD2 elas tinham. A proteína correspondente a esse trecho de DNA participa do controle dos níveis de dopamina no sistema nervoso, um neurotransmissor que ajuda a regular reações emocionais.

A variante T do gene está associada com temperamentos impulsivos. A CC, com pessoas mais controladas.

Editoria de Arte/Folhapress
 

ANSIEDADE E ESTRESSE

Esse conjunto de informações sobre variação do comportamento e predisposição genética foi então cotejado com dados sobre a situação econômica em cada uma das 20 cidades, como taxa de desemprego e índice de confiança do consumidor.

Constatou-se o esperado, que sobram mais gritos e tapas para as crianças quando a economia piora, mas com algumas peculiaridades. A correlação mais forte não se dá com o nível de desemprego, e sim com seu aumento.

“As pessoas podem ajustar-se a circunstâncias difíceis quando sabem o que esperar, enquanto o medo ou a incerteza sobre o futuro são mais difíceis de lidar”, afirma Sara McLanahan, de Princeton, coautora do artigo.

O economista e escritor Eduardo Giannetti opina que o estudo na “PNAS” acrescenta uma dimensão ao custo de uma grande recessão que não está sendo computada –“e ela é considerável”.

QUESTÃO DE PERCEPÇÃO

Giannetti ressalva que a variável de maior impacto, nas pesquisas de bem-estar subjetivo, é o nível de desemprego, como fator de depressão, ou até de suicídios. “Mas a economia comportamental leva muito a sério a percepção, que pode dominar o modo como a pessoa reage.”

“O senso comum liga o estresse à sobrecarga, por exemplo de trabalho. Na verdade, do ponto de vista da resposta, tem mais a ver com a percepção de falta de controle da pessoa sobre o que lhe acontece”, afirma Marina Rezende Bazon, do Departamento de Psicologia da USP de Ribeirão Preto.

Especialista em abuso parental, Bazon explica que o agressor típico é uma pessoa impulsiva, que impõe regras rígidas à criança e reage mal quando esta não as segue, o que toma por provocação. Seu nível de irritabilidade é maior, o que pode ser explicado por fatores biológicos.

O curioso é que, nos períodos em que a economia melhora, ocorre uma inversão. Mães impulsivas se tornam menos propensas ao abuso do que as menos impulsivas.

ORQUÍDEAS E DENTES-DE-LEÃO

Mitchell Ginsberg, coautor do artigo, diz que ele reforça a hipótese “orquídeas e dentes-de-leão”.

As mães portadores do alelo (variante) T, sensíveis como orquídeas, murcham em ambientes pobres. As demais, robustas como dentes-de-leão, florescem em qualquer lugar.

Para Sara McLanahan, outra coautora, não se deve falar em genes “bons” ou “ruins”. Dohoon Lee recomenda “extrema cautela” na interpretação dos resultados. Ele não vê sentido em pesquisar quais variantes do gene DRD2 as mães carregam no DNA.

Para Eduardo Giannetti, pesquisas sobre comportamento e biologia criam dilemas de política pública. Por exemplo: numa situação econômica hostil, e sabendo quem é vulnerável, caberia dar proteção extra às crianças?

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