A tanatofilia ou como as bombas são gostosas

 

Enio Squeff

10/09/2013 

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Não há como defender que os EUA tenham só fogo para dar ao mundo. Mas se até as suas expressões cinematográficas não conseguem fugir à violência com jorros de sangue a cada tomada, talvez se possa concluir que a tanatofilia lhes seja uma das regras de sua conduta
 
Tanatofilia é uma palavra complicada que traz em si mesma uma ideia difícil de entender – seria um gosto especial pela morte que pode não se confundir com necrofilia – e que estaria mais próxima de uma excitação pervertida por cadáveres. Compõe-se a tanatofilia de dois radicais gregos – tanatos, morte – e filia, que quer dizer gosto, amor. Pelo complexo do conceito, porém – quem gosta da morte em sã consciência? – não se pode negar o seu cultivo arraigado pelo sistema norte-americano. A cena caricatural do filme de Stanley Kubrik – Dr. Strangelove – de um cowboy montado num bomba H, feliz por desencadear uma guerra nuclear, num gesto tipicamente ianque, de pura fanfarronice, pode ser o que é – uma bravata caricatural- mas resume, no fundo, o que mais parece animar o sistema norte-americano. A idéia de atacar a Síria, matando gente, para impedir a morte desta mesma gente, é um absurdo em termos, mas nada parece animar mais os corações e mentes dos tanatófilos não só americanos. No fundo, são eles que mais mandam e fazem. E o presidente norte-americano Barak Obama por mais que se vista diferente, não deixaria assim de ser um agente do Império no que ele tem de mais cruel.

Na verdade, tudo parece realmente muito simples. Era exatamente esse o raciocínio da família Bush. Já que o Iraque poderia deter armas de destruição em massa – uma mentira devidamente divulgada pela imprensa norte-americana contra as provas, em contrario, apresentadas pela ONU – que se antecipassem as coisas. E se matassem tantos iraquianos quanto possível. Ou seja, para proteger os iraquianos do seu ditador, os EUA mataram muitas vezes mais do que se imaginava que Saddam Hussein pudesse fazê-lo, enquanto vivo. Cometida a loucura, não se ouviram autocríticas. Milhares de mortos depois, inclusive norte-americanos, com a mesma cara de pau, os EUA, agora, se retiram do Iraque. Mais uma vez, a celebração da tanatofilia cumpria-se no rito macabro do morticínio em massa indiscriminado. Qualquer alusão aos sacrifícios humanos das civilizações maias e astecas, egípcia, romanas…não parece um despropósito. 

Seriam, porém, esses os tão decantados autênticos valores da civilização norte-americana? 

Claro que não. Karl Marx que fez a mais visceral crítica ao capitalismo, nunca mitigou sua admiração à civilização burguesa. Foi dela o implemento às relações de produção. Nasceu da burguesia a ideia do primado da troca, em vez dos despojos puros e simples da pirataria. Soa anti-histórico que os vikings, na sua brancura polar( ultimamente transformados em heróis dos filmes anglo-saxônicos), tenham acrescentado qualquer coisa à civilização europeia em face da real contribuição dos fenícios semitas. É uma história antiga, da qual os ingleses e norte-americanos extraíram suas lições sem terem, logicamente, abandonado jamais a força. Num dos mais brilhantes discurso que fez sobre as contribuições dos Estados Unidos às guerras – à tanatofilia, digamos – Fidel Castro demonstrou, numa conferência há quase vinte anos, que os EUA do século XIX ao XX, nunca pararam de matar ininterruptamente , em guerras sucessivas que, como se sabe, entraram século XXI afora. Seria fastidioso, porém, diminuir os avanços do capitalismo norte-americano não apenas em seu território: a própria tecnologia da guerra tem seu corolário na tecnologia da paz. E vice-versa. Por outro lado, é inegável a contribuição de alguns intelectuais norte-americanos às mais ferinas críticas feitas ao sistema. Nunca parece ocioso lembrar a corajosa intervenção assinada por Susan Sontag, escritora norte-americano, aos acontecido do 11 de setembro. Quando a quase unanimidade da imprensa e da inteligentsia americana clamavam por vingança ao atentado às Torres Gêmeas, a grande escritora não se furtou à crítica avassaladora ao Império. Lastimou as mortes, sem dúvida, mas disse dos terroristas que eles podiam ser tudo, menos covardes. Ninguém abdica da vida em nome da covardia. E para que bem a entendessem, assinalava que muito mais covardes eram os pilotos norte-americanos que bombardeavam à distância ( os drones, essa arma timorata que mata à distância e tão do agrado de Obama ainda não tinham sido implementadas), sem se submeter ao fogo antiaéreo dos bombardeados. Sontag previa o pior, que afinal os drones e os foguetes “cirúrgicos” tanto de Israel quanto dos EUA, nunca a desmentiram. Outro intelectual norte-americano, Noam Chomsky, foi mais direto. Em Porto Alegre, durante um dos Fóruns Sociais Mundiais, quando perguntado por um jornalista se conhecia algum terrorista, o grande linguista foi certeiro: conhecia, sim, pelo menos dois. E nomeou-os: George W. Bush e o então secretário de Estado, Donald Rumsfield. Não é só por isso, que toda a generalização sobre os Estados Unidos é injusta e burra. Mas a tanatofilia em relação à política externa americana parece longe de ser uma expressão injusta, ainda que não usual: a lógica dos drones e bombardeios a assassinar indiscriminadamente em nome da segurança americana, ou alegadamente da humanidade, é um repto a qualquer ideia de paz. E de democracia.

Alguns críticos alegam que a tanatofilia americana não é maior que a tanatofilia russa ou chinesa. Que se houvesse um especial empenho das duas nações que apoiam o ditador sírio, em buscar a paz, ela sobreviria bem antes dos mais de cem mil mortos na guerra civil. É plausível – mas ambas as nações que protagonizam o apoio ao governo sírio, não estão a ameaçar intervir no conflito, diretamente, com foguetes, bombas e tudo mais de que dispõe o presidente Barak Obama. Talvez, enfim, a tanatofilia tenha emergido com o país que mais se envolveu em guerras nos últimos anos. E que, mais que outra nação do mundo, vem se empenhando em derrubar governos, em ditar lições de democracia sem abrir mão da sua capacidade de matar. Aliás, se as expressões artísticas dizem alguma coisa, nada afirma mais esse amor ao sangue do que os filmes norte-americanos que enxameiam as televisões do mundo. São raras, raríssimas, as fitas “made in USA” que não regurgitem de sangue, sopapos e desastres – carros explodindo, sob o fogo de armas poderosíssimas, com vilões e mocinhos a disputarem quem mata mais. Só por aí já se tem a grande diferença – mas ela se torna abissal quando o grande Império promete matar para acabar com o morticínio. 

Quando os espanhóis invadiram o Peru e começaram a disputar tiro ao alvo em algumas estátuas incas, um monge lhes perguntou por que faziam aquilo. Um oficial lhe respondeu que cada civilização ostentava o que tinha – os incas, naquele momento, tinham estátuas, os espanhóis, fogo. 

Não há como defender que os EUA tenham só fogo para dar ao mundo. Mas se até as suas expressões cinematográficas não conseguem fugir à violência com jorros de sangue a cada tomada, talvez se possa concluir que a tanatofilia lhes seja uma das regras de sua conduta. Chamemo-la eufemisticamente de esforço pela democracia; ela não conseguirá escamotear para o mundo, seu gosto especial pela morte. 

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