Por que nosso cérebro não percebe o óbvio

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Na casa do suposto sequestrador de Cleveland (EUA), Ariel Castro, as portas viviam trancadas com vários cadeados, as janelas eram fechadas com pregos e as visitas não podiam subir as escadas ou ir até o porão.

Afinal, por que os visitantes não notaram algo de errado durante os dez anos em que as três mulheres foram mantidas em cativeiro? Psicólogos afirmam, contudo, que ninguém perceberia: estamos tão concentrados no que estamos fazendo que é fácil deixar passar detalhes estranhos.

Em um experimento, os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons pediram que um grupo de pessoas que assistia a um vídeo contasse o número de passes entre os jogadores de um mesmo time. Metade delas não percebeu um homem fantasiado de gorila andando no meio da quadra. Ainda assim, acreditamos que somos capazes de observar cada detalhe de uma situação.

“Tendemos a acreditar que podemos perceber todas as coisas importantes”, afirma Chabris, professor da Union College e co-autor com Simons de “O Gorila Invisível”.

Em outro experimento, Chabris e Simons simularam uma briga e, simultaneamente, fizeram os participantes perseguirem uma terceira pessoa pessoa. “Muitos não notaram [a briga]”, relata Chabris. “O que parece evidente – duas pessoas brigando – deveria chamar mais a atenção,  mas quando se persegue um suspeito, é absurdamente fácil deixar passar coisas que, em retrospecto, parecem óbvias”.

Quanto aos cadeados em uma casa caindo as pedaços, é totalmente plausível que um vizinho que tenha pedido um ovo emprestado por exemplo, não os visse. “Ninguém entraria lá decidido a procurar por alguma coisa fora do normal”, disse Chabris.

Nossos cérebros formam categorizações gerais e rápidas do ambiente à sua volta, explica Barbara Tversky, professora de psicologia da Teachers College da Universidade de Colúmbia. “O mundo é terrivelmente confuso, há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo – visual e auditivamente – e a forma como lidamos com isso é a categorização”, explica.“Processamos o mínimo necessário para nos comportarmos adequadamente, e os elementos fora do comum são ignorados”.

Além disso, os humanos são capazes de se concentrar interiormente enquanto realizam tarefas externas, como caminhar até o mercado. “Podemos caminhar pela rua e ao mesmo tempo pensar na lista de compras. A mente se interessa mais por coisas do que por apenas caminhar por aí. Não temos consciência de quantas coisas não percebemos”.

Nossa mente tende a armar um outro truque quando pensa retrospectivamente, diz Chabris. Podemos acreditar que certos indícios são evidências sólidas, mas casas sujas e bagunçadas e até mesmo portas fortemente trancadas nem sempre significam que alguém está infringindo a lei.

“Há uma linha tênue entre ser um sequestrador e ser um excêntrico”, define Chabris. “Embora pareçam sinais evidentes de que um sequestro está em andamento há anos, entre todos os homens que usam cadeados nas portas, têm casas sujas ou barracas de papelão na sala – ou todas as três coisas – quantos são sequestradores ou estupradores”?

É claro que os amigos ou parentes próximos podem notar um comportamento estranho com mais facilidade que um simples conhecido.

“Talvez eles percebam mudanças de comportamento (como usar mais cadeados) que os outros deixam passar”, explica Chabris. “Mas as hipóteses concorrentes – ‘ele é excêntrico’ ou ‘ele mantém pessoas em cativeiro’ – ainda têm probabilidades diferentes de acontecer. Portanto, mesmo alguém que o conheça bem dificilmente perceberia o problema. É muito raro, e a alternativa `ser excêntrico’ é muito mais comum”.

Esse fator, aliado à forma como o cérebro processa a memória, é suficiente para fazer com que os psicólogos questionem a importância do testemunho ocular.

“Todos esses elementos, quando combinados, são problemáticos”, conclui Chabris. “Como psicóloga cognitiva que estuda esse processo, gostaria que houvesse uma forma de o sistema legal compreendê-lo em profundidade”.

Por: Sheila M. Eldred

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