O que fazer quando a alma não tem mais utilidade

Leandro Marshall

 

Hoje, todo mundo tem um corpo e uma alma. Demorou bastante, mas até os escravos, os estrangeiros, as mulheres, os bárbaros e os animais domésticos ganharam o direito de ter uma alma.

A história registrou esta luta da humanidade na sangrenta conquista da própria essência. Lanças, catapultas, invasões, cruzadas, raças, tamanho do cérebro, genética ariana, evolução natural, animismo, barbárie, todos os motivos serviram como justificativa para que homens aniquilassem corpos na defesa de que suas almas eram infinitamente superiores e soberanas.

A antropologia da loucura de Borges mostrou sempre, muito bem, que a alma do outro é sempre mestiça, suja, defeituosa. Nada como eu como espelho do mundo.

Minha alma é sempre a mais bela, a mais pura, a mais altiva. Afinal, os deuses da minha terra deram nossas almas para que sejamos os mais fortes, os mais valentes e os mais inteligentes. E, além disso, as almas alheias cheiram mal e não tem serventia nenhuma para a civilização. Elas são aquilo que seus donos são: inúteis.        

Não importa que os corpos empestem a civilização dos abençoados pela graça humana e divina da vida. São apena os ‘nadies’ sombrios e insólitos, criados tão somente para que os verdadeiros corpos sejam reconhecidos pelo seu valor e pelo seu brilho.

O que vale neste jogo de espelhos e de leões cegos é a verdade da alma escolhida pelos mais poderosos deuses do mundo. Nada mais óbvio, sabemos todos, que se nossos deuses são melhores do que os outros, nossas almas são simplesmente fantásticas.

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