Narciso acha feio o que não é espelho

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Leandro Marshall

Ícaro apaixonou-se pelo seu poder de voar. Teseu encantou-se com a sua própria coragem. Aquiles embriagou-se com a sua crença na imortalidade. Hércules ficou fascinado com sua valentia e força.

Todos eram filhos de deuses e todos morreram por causa de suas paixões. Eram paixões violentas, que contagiaram os músculos, os ossos e as ideias destes seres, tão poderosos quanto os deuses e tão frágeis quanto os homens.

Todavia, nenhum padeceu da paixão mais sangrenta de todas: a paixão humana pela própria imagem. Esta é a máxima doença da alma e a mais ácida das alucinações já vistas no universo do cérebro humano.

Nada pode ser mais agradável do que eu me amar, mesmo que o meu auto-amor possa se tornar minha cova ou minha prisão.

Narciso se apaixonou pela própria imagem. Ele ficou tão encantado com sua beleza e juventude que afogou-se na própria alma. Nada mais belo, nada mais puro, nada mais sublime e infinito.

O auto-retrato de Narciso foi registrado num simples espelho líquido, em meio a uma floresta de espelhos e retratos da natureza. O reflexo natural do jovem, eternizado na borda da água de uma lagoa, acabaria se tornando a matriz tecnológica e estética de todos os espelhos, dando origem, na vida surreal do led e do neon, aos auto-retratos tirados pelo celular no espelho do guarda-roupa dos kitinetes das grandes megalópoles pós-modernas.

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