Carta aos medíocres

mediocre
 
Leandro Marshall
Palmas para todos os medíocres do mundo.

Não é fácil viver nas sombras,
não ter coragem para enfrentar os escombros e os sussurros,
nem acreditar que o desejo pode ser mais forte do que o medo.

Viver torna-se uma verdadeira sentença de morte para aqueles que
preferem negar a vida, renunciar à verdade, desistir da luta, emudecer no momento
de gritar e acovardar-se quando todos esperam que haja esperança, ousadia e coragem.

Afinal, é preciso muita coragem para ser um covarde,
é necessário muito esforço para fugir antes de correr
e viver com o eterno receio de nascer ou morrer.

Vida longa para o mundo e para obra de todos os medíocres do mundo.

Afinal, são os medíocres que dão razão e sentido
ao que é limpo e ao que é sujo,
ao que tem honra e ao que é podre, e
ao que é puro, imaculado e sagrado
e ao que é vergonhoso até para os esgotos mais miseráveis.

São os super-medíocres que sempre pensam o impensável,
que descobrem o paradoxo mais incrível
e que deduzem tudo o que jamais poderia ser deduzido.

A vida seria terrivelmente triste e enfadonha
sem aquelas criações que emanam dos insights mais bestiais,
sem todas as prodigiosas peripécias matematicamente impensadas e
sem as belas engenhosidades nascidas das mentes mais ignóbeis do mundo.

Um brinde a todos os medíocres do universo.

A mediocridade tem o especial poder de fazer a morte transformar-se em alegria, imantar as pessoas num imenso brinde à alienação,
e demonstrar que uma cova pode acabar se tornando a tua melhor amiga.

Devemos sempre dar graças a Deus pelos medíocres serem
tão insistentes, tão generosos e tão eficientes.

São os medíocres que, afinal de contas, eternizam as vitórias e os vencedores,
são eles que consagram aqueles que jamais serão esquecidos;
são eles que se calam na hora em que os gigantes ensinam o que se deve falar.

Abençoados os medíocres de todo o universo.

Afinal eles nasceram para garantir que as coisas mais importantes da vida tenham seu justo valor. Não haveria sentido na terra sem a sabedoria da mediocridade, sem a grandiosidade dos covardes e sem a majestosidade profana da imbelicidade humana.

O mundo ama os medíocres,
a vida idolatra os medíocres,
o universo não consegue viver sem os medíocres.

Por tudo isso, devemos sempre dar amém,
levantar as mãos para os céus,
e agradecer por estarmos vivos e presentes em todos os momentos,
pois não será eternamente que poderemos louvar todos os homens inúteis,
todos os homens incapazes, todos os homens abestalhados e, sobretudo,
todos aqueles que se mijam nas calças
quando são intimados a dizer
se eles nasceram para aceitar a vida como ela é
ou se nasceram para lutar por uma vida honesta e decente.

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