A origem da civilização (na versão dos leões)

Anibal versus roma

Leandro Marshall

No início dos tempos, cada homem e cada mulher enfrentava a vida do jeito que dava. Não havia muitas opções e, normalmente, as circunstâncias obrigavam as pessoas a tomar uma determinada decisão, independentemente do que elas pensassem ou do que elas quisessem.

O que regia a vida e a morte de todos os seres era apenas a ética da crueldade. Não havia espaço para diálogo ou uma tentativa de contrato. Por mais que alguém tentasse, os leões não gostavam muito de conversar. Os bisões eram impacientes e os mamutes estavam sempre muito apressados e extremamente famintos.

Por isso, a vida naquele mundo original era bastante radical. Quem quisesse tentar algo diferente, caia sempre no mesmo lugar, isto é, no infinito. O ato de pensar era um luxo quase impossível. E a ideia de buscar estabelecer um pacto de auto-respeito e cooperação significava virar uma janta saborosa para o predador e dolorida para a presa.

Tudo estava imerso nesta lógica. Os homens e mulheres tinham horizonte bastante restrito. Às vezes, a decisão era morrer rápido ou morrer devagar. Em outras, a escolha recaia entre matar sem piedade para não morrer sem piedade. E, em muitas ocasiões, alguns tiveram que devorar os filhos, os pais ou os irmãos para não serem devorados por eles.

Não foram os melhores momentos nem as mais bonitas páginas da história da humanidade. O fato é que, com o tempo, as coisas foram melhorando graças à ajuda das ferramentas e da inteligência coletiva, socialmente compartilhada entre aqueles que preferiram viver o máximo possível para morrer o mínimo possível.

Os mais aptos eram sempre os mais resistentes. E acabavam formando sempre uma confraria entre os mais rápidos, os mais fortes, os mais experientes e os mais corajosos. Era comum que obtivessem os melhores resultados nas caçadas e aproveitassem as melhores ofertas da natureza. Os lentos, os fracos, os quietos, chegavam sempre atrasados e acabavam só assistindo ao banquete do poder e da força.

Nesta dinâmica, os mais aptos acabaram ficando cada vez mais robustos e mais eficientes. Não tinham nenhuma aliança assinada, pois, dependendo dos fatos, acabavam sempre defendendo seus interesses pessoais em detrimento dos interesses coletivos. O altruísmo era, neste processo, um instrumento de guerra que servia enquanto favorecesse o egoísmo. No momento em que a união não fosse mais interessante para ninguém, a lei da barbárie decidia que cada um cuidasse de si e que Deus tivesse juízo e decidisse ficar bem longe da briga.

Tornou-se banal, naqueles primórdios, o sistema econômico do vale-tudo. Os mais aptos, os mais espertos, os mais ligeiros, refestelavam-se com as suas conquistas carnais e vegetais, fossem elas alcançadas da maneira que fossem. Em muitos momentos, o insucesso contínuo na caçada e a preguiça em recorrer à colheita, faziam os mais aptos apropriarem-se das reservas de carne e de frutos obtidos pelos outros animais.

Lentamente, isto passou a se tornar rotina. Quando os mais aptos não conseguiam suprir suas necessidades, eles buscavam servir-se no almoxarifado natural alheio. Se acumulavam coisas, dividiam entre eles, os mais aptos. Se não acumulavam nada, expropriavam o patrimônio vizinho, e repartiam novamente apenas entre eles. Os mais fracos ficavam apenas assistindo.

Esta prática de usurpação e de exploração acabou ficando cada vez mais sofisticada. Quando os mais aptos achavam que a comida dos mais fracos era mais apetitosa, eles trocavam os pratos. Quando eles tinham curiosidade em comer algo que nunca haviam experimentado, eles iam lá e pegavam dos mais fracos.

Em muitas situações, almoçavam um belo banquete e distribuíam a refeição dos outros para os seus filhos ou para os animais domésticos. Às vezes, invadiam as moradias dos menos favorecidos para se fartar de bens ou de produtos de todos os tipos. Em várias ocasiões, chegaram a ocupar as casas daqueles mais fracos e decretar que eles, a partir daquele momento, eram os novos proprietários.

Todas estas ações foram se tornando, mais e mais, comuns e rotineiras. Os mais fortes tomavam coisas ou pertences; saqueavam as propriedades; assumiam o controle do patrimônio ou do negócio dos outros; seqüestravam as fêmeas; monopolizam fontes naturais; proibiam ou restringiam práticas sociais e culturais; e, determinavam quais as leis e quais as regras deveriam ser seguidas por todos, fossem fracos ou fortes, rápidos ou lentos, saudáveis ou doentes.

A extração dos recursos naturais, a manufatura destes bens e o processo de industrializar todos aqueles materiais envolveram e movimentaram todo o mundo primitivo, dentro da lógica e da ética da crueldade, da exploração e da expropriação. Os mais aptos chegaram a introduzir fatores macro e micro sistêmicos, legitimando, dentro das leis criadas por eles mesmos, o poder de ‘alguns’ trabalharem para outros, de ‘alguns’ pagarem ou não pagarem pelo trabalho dos outros e de ‘alguns’ trabalharem para os outros, mas sem ficar com nenhum dos produtos daquele trabalho.

Ao mesmo tempo, os mais aptos, os mais fortes e os mais poderosos, decidiram atribuir valor, medida e nome para todas as coisas extraídas da natureza e processadas pelas máquinas. Chamaram estes produtos de mercadorias, estabeleceram que estas mercadorias teriam símbolos e marcas, e estipularam quanto cada uma das inúmeras mercadorias deveria valer.

Isto acabou se enraizando, se espalhando e se perenizando por todas as esferas e por todas as dimensões da realidade. Como ninguém mais sabia como esta lógica havia iniciado, quem havia estabelecido as regras e como o sistema funcionava, todos passaram a aceitar a realidade como se esta fosse uma realidade natural.

Apesar de, em algumas poucas vezes, alguns indivíduos levantarem suspeitas sobre um possível sistema de injustiça ou sobre uma hipotética estrutura de desigualdade, os mais aptos sempre procuraram mostrar, com todas as palavras, que aquele era um sistema que dava oportunidades iguais para todos, já que o princípio de tudo estava assentado nos valores da liberdade e da igualdade.

Em síntese, esta é a história da origem da humanidade e de como os mais poderosos transformaram as práticas do ‘roubo’, da ‘escravidão’ e da ‘barbárie’ num sistema econômico e social chamado, por eles, de ‘trabalho’, ‘sociedade’ e ‘civilização’.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s