A parte inventada

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RODRIGO FRESÁN

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/153456-a-parte-inventada.shtml

Folha de S. Paulo

23/02/2014

TRADUÇÃO JOSELY VIANNA BAPTISTA

Aqui e agora, nesse momento, o Menino na praia tem “preocupações” mais infantis, mas também de difícil solução. Muitas delas –faltam ao Menino, e lhe fazem falta, palavras, formas de organizá-las– são mais intuídas que verbalizadas e pensadas; outras lhe ocorreram um pouco mais tarde, mas sempre irá se lembrar delas como sendo parte e partes de uma infância sem fronteiras ou limites claros. Questões que, às vezes, parecem enlouquecê-lo na medida, na praia, porque ele ainda não está “louco demais”. Exemplos dispersos que, traduzidos para um formato adulto, soariam mais ou menos assim:

  • Por que o Superman parece fazer o mesmo esforço –a mesma tensão muscular, o mesmo cenho franzido– na hora de levantar um carro ou de alterar, aos trancos, a órbita de todo um planeta? O que o leva a pensar: é realmente produtivo para a humanidade que o Superman e seus amigos –entenda-se: Batman & Cia– cuidem tanto assim de nós e com tanta eficácia? Não é um tanto inquietante que toda vez que o Homem de Aço ou o Homem Morcego são momentaneamente neutralizados por um de seus muitos arqui-inimigos –entenda-se Lex Luthor ou o Coringa– nem a polícia nem o Exército nem a sociedade em conjunto possam fazer alguma coisa? E que, entregues à observação do uso do superpoder ou da mega-habilidade, se limitem a não fazer nada além de rezar pela –felizmente inevitável e nunca muito tardia– recuperação e fulminante vitória do paladino, até a próxima aventura em que começa tudo de novo, e assim por diante? (Muito tempo depois, o Menino definiria os cada vez mais absurdamente evoluídos e multifuncionais celulares e seus aplicativos de natureza “social” como “super-heróis de bolso sem os quais não conseguimos mais viver e dos quais dependemos sem fazer a menor ideia de que eles são supervilões”.)
  • Por que os expedicionários que chegam à Ilha da Caveira do King Kong não escolhem levar para a civilização um dinossauro mais fácil de controlar, com cérebro pequeno e apetites simples — e, como espetáculo, muito mais vistoso e impressionante–, em vez de um gorila gigante e instável fascinado por loiras? E por que nesses filmes de monstros japoneses alguém sempre para de correr e se vira e levanta os braços aos gritos, imóvel, antes de ser esmagado pela pata de um gigantesco réptil?
  • Como é possível que a ioga que sua mãe pratica –visões aterrorizantes do pé dela em cima da cabeça, da cabeça dela no meio das pernas, daquela elasticidade de massa de modelar de todo seu corpo– seja uma coisa benéfica, e não exatamente o contrário?
  • Por que o queijo tem buracos?
  • Por que as pessoas que cantam “Parabéns pra Você” sempre parecem estar pensando em outra coisa e por que alguns não chegam nem a cantar, limitando-se a mover os lábios sem emitir nenhum som, tal como cantam, o que ele logo irá comprovar, o hino nacional em atos escolares? E o que fazem ali aquelas pessoas cantando parabéns com um ódio disfarçado, como se lhe desejassem o pior, como se estivessem zombando por você estar comemorando a passagem do tempo, do seu tempo?
  • Quem decide as cores dos países nos mapas e globos terrestres e é possível arranjar trabalho fazendo isso?
  • Por que os dedos da mão têm nome, e os dedos do pé não? (Questão que vai ficar ainda mais intrigante quando no colégio ele descobrir que, em inglês, os dedos da mão se chamam “fingers”, e os dos pés, “toes”.)
  • Aquele halo que circunda a cabeça de Cristo é a representação gráfica da poderosa enxaqueca causada pela coroa de espinhos?
  • Por que todo mundo teima em encontrar as semelhanças com os bebês, se é perfeitamente óbvio que os bebês não se parecem com ninguém, com nada, a não ser com eles próprios?
  • A gelatina é animal, vegetal, mineral ou interplanetária?
  • Por que as piadas não conseguem ser guardadas –pois o impossível não é se lembrar delas, e sim não se esquecer delas– e se dissolvem tão rápido na memória? (Enigma que crescerá com ele e, mais maduro, vai se traduzir num “Será que piadas são feitas da mesma matéria que os sonhos?”)
  • E por que na hora dos contos de gênios –muito mais interessantes que os contos de fadas– o último e terceiro desejo nunca é “Quero mais três desejos” e, assim infinitamente, possibilitando que se inclua, então, pedidos absurdos, tais como que o melhor aluno deixe de saber as lições, que a água da piscina vire Coca-Cola, que o final de semana dure um ano inteiro ou que, caso sobrem desejos, exista paz e amor no mundo inteiro, incluindo, aí, seus pais?

Há dezenas, centenas de questões como essas dançando na cabeça do Menino. Mas nem todas as “preocupações” dele, é claro, são tão sofisticadas. Ele também tem pânico de mulheres gordas, que não considera simplesmente malvadas, e sim, em disney- língua, malignas, ou malévolas, ou maléficas. O mal, porém, já está feito, ou o mau funcionamento já foi ativado. E o Menino agora é alguém sem muito bom senso e já pensa como um daqueles primitivos brinquedos de corda e de lata. Como seu brinquedo favorito. Brinquedo –embora o Menino não consiga nem imaginar uma coisa dessas, que as coisas possam deixar de ser– prestes a deixar de ser fabricado. Prestes a ser descontinuado, como acontecerá com os piões faiscantes e com os macaquinhos tocando bumbo. Modelo esgotado que vira item de colecionador: o elo perdido entre a eterna tração animal dos brinquedos politicamente corretos e o som e a fúria dos monstrengos eletrônicos e informatizados prontos para aterrissar e invadir.

E, embora o Menino não saiba disso, existem muitos meninos como ele. Lá fora. Sendo criados em segredo e prontos para a linha de montagem. Infiltrados em lares terrestres como alienígenas esperando o sinal de ligar a fim de mostrar a que vieram, para alegria dos psicólogos especializados. Meninos cujas infâncias serão modificadas pela separação em série de pais pouco sérios. Meninos que, de repente, para não pensar nisso, que é tão estranho, vão começar a pensar em coisas ainda mais estranhas, a pensar muito, o tempo todo, para não pensar nem um pouco. “Ei, estão chegando os novos Filhos de Pais Divorciados. Peça para o papai e para a mamãe neste Natal!”

E o vírus vai aumentar de intensidade daqui a muito pouco tempo, e para sempre. E haverá mais perguntas, perguntas crescentes, à medida que ele for crescendo, sem que, por isso, fique mais velho ou menos brincalhão:

  • O que essa vírgula está fazendo no meio dos números? Não seria a matemática uma coisa criada exclusivamente para enlouquecê-lo, uma conspiração universal na qual todo mundo finge que está entendendo alguma coisa que, sem dúvida nenhuma, é incompreensível e não faz nenhum sentido nem tem a menor lógica? E por que um psicótico é aquele que tem certeza de que 2 + 2 são 5, ao passo que um neurótico sabe que 2 + 2 são 4, mas não consegue suportar isso? E como será classificado quem sempre pensou que 2 + 2 equivalem a 1 + 1 + 1 + 1 ou ao número exato de vezes que é preciso deixar o telefone tocar antes de atendê-lo ou desligá-lo?
  • Por que, nas séries de TV, nos filmes, parece que a velocidade máxima só pode ser expressa pela câmera mais lenta?
  • Por que as pessoas colam fotos de seus entes queridos em portas de geladeira? Será que acham que são matéria fria ou comida a ser aquecida?
  • Por que os cantores das bandas de heavy metal cantam com aquela voz superaguda, quando, por definição e intenção, a voz deveria ser grave, metálica, pesada?
  • Por que as vítimas dos zumbis sempre são alcançadas por estes não mortos, ou não vivos, se eles se movem de forma tão desajeitada e aparentemente sem nenhuma urgência? Por que os zumbis precisam tanto se alimentar de cérebros (brrrrrrrrainsssss…), se esse consumo não aumenta nem sequer em um grama sua ínfima inteligência?
  • Como é que os extraterrestres –em vez de abduzir governantes mundiais, cientistas de renome ou grandes artistas– preferem sempre abduzir campônios toscos ou tristes cabeleireiras suburbanas ou qualquer um que esteja passando por ali olhando para o céu?
  • E por que aqueles que antes paravam para ajudar a vítima de um acidente, agora –não mortos? marcianos?– se limitam a filmar tudo com seus celulares para ir correndo postar no YouTube?
  • O que o leva a pensar: por que os caras famosos viciados em sexo que se internam em clínicas para se livrar do mal –depois de arrasar vários haréns de deusas de pernas longas e seios empinados– nunca são flagrados por suas esposas com mulheres “normais”, feiinhas, ou mesmo idosas?
  • Por que as garotas receiam tanto que as espiem de lingerie, mas não que as vejam de biquíni e sempre dizem “Não sei o que é que eu tenho”, quando na verdade sabem muito bem o que têm?
  • E por que as mulheres –debaixo de lençóis e cobertores, mesmo no verão– estão sempre com os pés frios?
  • Por que quando as pessoas dizem “A culpa não é sua”, na verdade querem dizer justamente o contrário? (Embora nem tenha lhe passado pela cabeça a palavra culpa, ela agora está lá, para sempre, esta palavra que a partir de então é toda sua, para sempre.)
  • Ou, ainda, por que cada vez mais gente para em portas de entrada ou na frente de escadas rolantes ou em saídas de transportes públicos para consultar dispositivos eletrônicos?

E embora o lance do King Kong, como tentáculos vindos da infância profunda, continue a inquietá-lo, e muito, o mais intrigante de tudo é essa pergunta. A pergunta que é plantada na infância mas que, com o passar do tempo, espalha sem parar suas raízes pela terra na qual um dia seremos enterrados para alimentar as árvores vindouras:

  • Gosto ou não gosto ou continuo gostando ou não gosto mais ou um dia gostei? Dela. Dele. De todos. De si mesmo.

Mas ainda lhe resta algum tempo antes que precise fazer todas essas perguntas.

SOBRE O TEXTO Um dos principais escritores de língua espanhola de sua geração, o argentino radicado em Barcelona Rodrigo Fresán, 50, lançou na quinta-feira passada, na Espanha, seu novo romance, “La Parte Inventada” (ed. Literatura Random House). O texto acima é um trecho do livro, selecionado pelo autor para a “Ilustríssima”.

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