A invenção da luz

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Leandro Marshall

Deus entrou na biblioteca com passos curtos e silenciosos. Não queira acordar ninguém. Procurou primeiro os óculos mas, mesmo sendo onisciente, não encontrou. A sala estava uma bagunça. Livros em todos os lados, sem qualquer organização ou hierarquia. Para piorar, uma escuridão total. 

Naquela época, ainda não existia a luz. Tudo jazia num imenso véu sem cor. Na verdade, a realidade possuía a cor de todas as cores, o branco. Deus achava que nenhuma cor era melhor do que a outra e que não deveria existir qualquer tipo de privilégio.

Nisto, em sua origem, o mundo acabou sendo decorado com todas as cores. Isto é: ficou todo branco. 

Mas Deus pensou: um pouco de preto poderia ajudar a regular melhor a imagem da realidade. Talvez enxergasse melhor se ele diminuísse ou restringisse a quantidade de tons. Poupar um pouco poderia ser uma solução.

E foi o que ele fez. No dia seguinte, repintou todo o universo. Não ficou uma maravilha nem uma porcaria. Mas como ninguém disse nada, nem sim e nem não, o mundo adotou o preto como uniforme permanente da realidade.

E, apesar de ser onisciente, Deus viu que isto era bom.

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