Se ‘sangue’ vende jornais, ‘sangrar’ vende muito mais

Dolphin-Slaughter-Peta

Por Leandro Marshall

Observatório da Imprensa

24/02/2015 na edição 839

Todos sabemos que a matéria-prima da imprensa é a miséria humana. Quanto mais morte, carne, sangue e desgraça estiverem estampados nas capas dos jornais ou nas telas das mídias digitais, mais os jornais conseguirão chamar a atenção dos consumidores e, ao mesmo tempo, mais os consumidores darão atenção aos jornais. O ciclo é curioso, mas não tem fim. O cidadão parece apreciar e se satisfazer com a exibição da desgraça do mundo e, neste diapasão, os jornais procuram explorar, cada vez mais, o espetáculo da carne, da morte e da podridão.

Originalmente, a paixão humana pela desgraça nasceu do primitivo comportamento humano que mistura catarse, sadomasoquismo e “vontade de poder”, além de muita inveja, narcisismo e tautismo. Parece complicado, mas é bem simples. Vivemos em sociedade e estamos, portanto, influenciados direta ou indiretamente, pela vida dos outros. Neste processo, temos a tendência a estabelecer nossas referências, padrões e valores pelas referências, padrões e valores das pessoas com que convivemos ou com quem (midiaticamente) nos espelhamos.

Logo, temos o hábito de compararmos nossa vida com a dos outros para sabermos qual nosso grau ou estágio de desenvolvimento, de realização e de felicidade. Isto faz com que ao compararmos nossa vida com a vida das outras pessoas, apareçam os motivos para acreditarmos quem somos felizes ou infelizes, fortes ou fracos, vitoriosos ou fracassados.

A dieta da desgraça

A exposição ao vivo do sangue dos outros mostra que nosso sangue está em paz. Osatos de insanidade (chacinas, traições, crueldades) revelam o quanto somos normais. A fome em bolsões de miséria (favelas, tribos ou centros urbanos) anuncia o quanto nosso salário mensal é maravilhoso. As derrotas (espetaculares ou prosaicas) revelam o quanto somos vitoriosos em nossa jornada mundana. A humilhação dos outros (prisão, denúncia, corrupção) confirma nossa dignidade e nossa honra. Os massacres (étnicos, religiosos ou sem razão) nos ajudam a dormir mais tranquilos. As demonstrações de pecado (luxúria, ganância, depravação) ensinam o quanto somos puros.

A verdade é que os jornais comercializam desgraça porque, no fundo, a desgraça é o alimento social que sacia a necessidade humana de paz e harmonia. No fundo, podemos dizer que precisamos consumir diariamente uma dieta de morte, de podridão, de infortúnio, para que possamos nos sentir confortavelmente humanos.

Temos aqui o paradoxo da paz e da guerra. Quanto maior a quantidade de carnificina alheia exibida nos jornais, maior é o sentimento de que nossa vida merece ser valorizada tal como ela é, pois, apesar de todos os pesares, nossas desgraças são insignificantes perto das desgraças gigantescas do mundo. Além do mais, os jornais acabam ajudando indiretamente a nos conformarmos com nossa realidade imediata, ajustando nossas expectativas e nossas ansiedades.

No fundo, acabamos adestrando nosso id social (e todos os nossos desejos de conquistar o universo) aos mandamentos sangrentos do superego moral e cultural da civilização embalados para consumo por meio das redes simbólicas do universo midiático. Isto acaba celebrando (e renovando periodicamente) o pacto social humano pelo consenso fabricado e pela manutenção da ordem e do progresso em nome da segurança geral.

O schadenfreude

A cultura alemã tem um nome próprio para este prazer mórbido do ser humano com a infelicidade dos outros. Os germânicos chamam isto de schadenfreude, isto é, “a alegria do mal”. A crença é de que existe um instinto básico, que acompanha o ser humano desde a sua origem, trabalhando para que possamos medir nossas capacidades e avaliar as capacidades dos outros.

À medida que vemos que as pessoas acabam descendo degraus na hierarquia social, que são pegas em atos ilegais ou imorais, que são flagradas em atos de simulação ou dissimulação econômica ou política, que não são merecedores do reconhecimento ou do respeito social, ativamos mentalmente o chamado “prazer da dor” e, ao mesmo tempo, diminuímos o crédito social dos outros aumentando nosso crédito simbólico pessoal.

Isto explica, de maneira curiosa, a satisfação humana com a leitura da vida das celebridades decadentes, com os escândalos sexuais, com os espetáculos de horror político, com fragrantes constrangedores, com confusões trágicas com criminosos ou com situações de aberração ética ou imoral. Estes insumos são reciprocamente a matéria-prima dos jornais e a matéria-prima que alimenta a “alegria do mal”. Um não vive sem a outra e uma alimenta a outra.

Este traço da natureza humana (em sociedade) tem sido atribuído, na maior parte do tempo, ao exercício do jornalismo, que, ao vasculhar os “erros”, “defeitos” e “anormalidades” da sonolenta vida cotidiana dos povos acaba reproduzindo a prática da Schadenfreude e induzindo os indivíduos a realizarem seus processos de “comparação”, catarse e sadomasoquismo.

Os jornais e o jornalismo tornam-se assim aparatos culturais e tecnológicos que levam à máxima potência a “alegria do mal” e que, diretamente ou indiretamente, contribuem para a manutenção e a preservação da ordem moral e social. Nada melhor do que carne, crueldade, morte e desgraça para atrair almas desamparadas e manter o equilíbrio ecossistêmico de mentes e corações eternamente insatisfeitos.

A “naturalização cultural do mal”?

O sangue é ótimo para os negócios e para alma. Quanto mais mortes, mais guerras, mais desavenças, mais insanidades, maior o número de leitores, ouvintes, telespectadores ou consumidores digitais e, de quebra, maior a audiência e a vendagem destes aparatos de comunicação e informação.

Talvez possamos dizer que melhor do que a fotografia e a reportagem do sangue, apenas a exibição do ato de “sangrar” seja melhor para o negócio jornalístico e mais eficiente no exercício da prática da “alegria do mal”. Uma coisa é ver o morto depois da guerra, da chacina ou da execução. Outra coisa é ver, em tempo real, ao vivo, a matança, o fuzilamento, o suicídio ou execução pública.

O Estado Islâmico, potentado criado na região do Oriente Médio por um grupo de fanáticos, tem sido mais eficiente, do ponto de vista midiático e da “alegria da crueldade” do que os ataques cirúrgicos realizados por potências militares, pelos campos de concentração nazistas, pelo Gulag soviético ou pelas execuções em série praticadas por psicopatas como Pol Pot.

Enquanto todos os regimes imperiais sempre procuraram esconder suas atrocidades, os membros do Estado Islâmico introduziram “a lógica da barbárie” como principal capital simbólico de suas forças. Eles não se satisfazem em executar seus inimigos. A ordem é realizar atos de “extermínio” de soldados, jornalistas, religiosos ou civis da forma mais cruel e midiática possível. Trata-se aqui de casos, divulgados a conta-gotas, de pessoas, cruelmente decapitadas, fuziladas ou queimadas vivas. Todos filmados e distribuídos para o mundo inteiro.

Não há dúvida que são exemplos da mais bárbara expressão de schadenfreude, já que, em tese, produzem o “prazer da dor” para quem pratica a barbárie e “a alegria do mal” para quem assiste, lê ou visualiza notícias sobre esta rotina de execuções cruéis, iniciadas em 2014 e sem previsão para acabar.

Pode-se discutir, inclusive, se a prática instituída pelo fanático Estado Islâmico não reforma, reestrutura ou atualiza o próprio conceito da banalidade do mal, levantado pela filósofa Hannah Arendt, julgando que a natureza “maldosa” do ser humano não era ontológica, mas “histórica” (criada pelos homens) e que nascia de uma espécie de uma naturalização da mal como expressão da estupidez e da insensibilidade humana.

Os shows de horror exibidos pelos fanáticos islâmicos não parecem estar enquadrados no conceito de que o ser humano tem a capacidade de cumprir ordens estúpidas apenas por que elas são ordens. Os fanáticos demonstram saber exatamente o significado dos atos que eles estão praticando e o efeito midiático global que elas estão provocando.

Será que a “banalidade do mal” não pode estar se transformando numa espécie do que poderíamos chamar de “naturalização cultural do mal”?

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