OS GANCHOS DO AÇOUGUEIRO

429380_2875711624115_1915271500_n

Um dos suplícios mais usuais da Idade Média consistia em punçar

a língua dentro da boca com ganchos de açougueiro.

A vítima berrava para o carrasco mouco:

o único consolo dos mortos é não morrer nunca mais.

Ao ousar novas palavras,

o escritor aciona o fracasso do signo em dizer algo do que é:

o madeiro que me refresca a fronte é galho de limoeiro,

na tigela planto um trevo de quatro folhas para curar o aziago.

Aprendo com a voz do velho vento que sopra de leve a cortina:

“Só quem bebe do leque da pavoa

esquece vírgulas e mata a morte”.

Agimos sob a fascinação do impossível:

isto quer dizer que – uma sociedade incapaz de consagrar-se à ilusão –

está ameaçada de esclerose e de ruína.

Texto: Fernando José Karl

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s