O sucesso, segundo Rubem Fonseca

 

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(Do livro Pequenas Criaturas)

Ele sai da cama dizendo, filhos da puta. Filhos da puta são as pessoas, é o dia que está raiando, o café que não vai tomar, o jornal que não vai ler, o trabalho, o sucesso, a cidade, o mundo inteiro.

Ele sabe que não está sofrendo de nenhuma depressão. Um deprimido não sente ódio, ele está sentindo ódio, de pessoas e coisas. Mais das pessoas do que das coisas.

O carro é uma coisa desprezível, mas qualquer pessoa é ainda mais repulsiva do que essa máquina estúpida. Está falando com ele mesmo, mas é maluco por isso? Não tomou banho nem fez a barba. É maluco por isso? Na semana passada saiu para fazer análise, mas para tanto é preciso ter fé, acreditar em bruxas e quejandos, mas se até Deus está incluído entre os filhos da puta, o que dizer do analista? Não era um neurótico precisando de muletas. Quem precisa disso é o palhaço do analista, suas muletas são os parlapatões, os vomitadores que vão lá pedir socorro. Pagou o filho da puta e voltou para casa.

Tem êxito no que faz, ganha dinheiro. É perfeito o conjunto de suas funções orgânicas, que distanciam a morte e o ajudam a pensar, esporrar quando é preciso e a defecar diariamente — e a carregar malas sem esforço. Mas não pretende fazer mais viagens; não importa aonde vá, é tudo a mesma porcaria. O sucesso é repulsivo, quase tanto quanto as pessoas. Cada vez tem mais sucesso e é cercado por mais pessoas nojentas e cretinas. Há a música, a poesia. Saem na urina. As coisas boas saem na urina.

E a mulher que perguntou você me ama e ele respondeu sim?

Infelizmente a vida não é uma anedota com final feliz.

“Ei, Roberto, abre a porta.”

“Vai se foder.”

“Angélica está aqui comigo.”

“Quero ficar só.”

“Abre a porta.”

“Vai se foder.”

“Angélica está aqui comigo.”

“É mentira. Você disse isso ontem e era mentira. Vai se foder”

“Estou aqui, sim, Roberto.”

“Vocês estão pensando que eu estou drogado. Não estou drogado. Não tomei nem água.”

“Eu sei. Abre a porta, querido.”

“Não me chama de querido. Você perguntou, você me ama, e eu respondi sim, mas você não me ama. Você disse eu não te amo mais.”

“Foi aquilo das mulheres…”

“Eram duas vadias enviadas por uma cafetina. Eu nem sabia o nome delas.”

“Eu fiquei magoada, mas agora não estou mais.”

“Não sei se você é mesmo a Angélica. O mundo está cheio de filhos da puta que imitam vozes. E eu não tenho a porra de um olho mágico na porta.”

“Você não conhece a minha voz?”

“Como é que eu te chamo quando estamos na cama?”

“Branquela. Abre a porta.”

“Manda embora esse bunda-suja que está com você.”

“Vai embora, Artur. Me deixa, vai embora. Roberto, o Artur foi embora, estou só eu aqui, não tem mais ninguém. Abre a porta. Eu te amo. Abre a porta, por favor. Você precisa de mim. Abre a porta.”

“O que foi que eu lhe dei de presente no dia do seu aniversário?”

“Um carro.”

“Eu te dei essa bosta de presente?”

“Deu.”

“Qual a marca?”

“Um Peugeot.”

“Porra, um carro francês. Os franceses são uns putos.”

“Abre a porta. Você já viu que sou eu mesma. Eu te amo. Sei que você me ama também. Abre a porta.”

Ele abre a porta. Dois homens de branco entram agarram-no, lutam.

“Angélica”, grita, olhando para todos os lados, sem vê-la.

Os putos pensam que ele é maluco? Está cansado de rolar no chão. Os homens lhe dão uma injeção no braço.

 

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